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Celebrar a vida com Kendrick Lamar

Mais do que um enorme concerto, o espetáculo do passado sábado à noite foi uma justa celebração de muita coisa, música incluída

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Sobre o grandioso concerto que Kendrick Lamar veio dar a Lisboa, no passado sábado, há quem tenha escrito mais e bem melhor do que eu. Remeto-vos para a reportagem do “nosso” Rui Miguel Abreu que, conhecendo os meandros do hip-hop de dentro da fora, nos presenteou com este artigo-relâmpago poucos minutos depois de o homem de “Bitch Don’t Kill My Vibe” abandonar a Meo Arena, prometendo voltar.

Já vira Mr. Lamar ao vivo: foi há dois anos, no Parque da Cidade, no Porto, e embora na altura tenha gostado do concerto, em 2016 a expectativa era diferente. No ano passado, houve poucos discos que tenha ouvido tanto e com tanto prazer como To Pimp a Butterfly, obra em que o rapper californiano faz de um caldeirão borbulhante de influências («The funk shall be within you», resume-se em «King Kuta») um conjunto de canções frenético, viciante e profundamente personalizado.

Mesmo sabendo que este era o único dia do festival com lotação esgotada, não deixei de me surpreender com o ambiente na Meo Arena quando, lá para a quinta música, consegui entrar no recinto. Não falo só da quantidade de festivaleiros distribuídos por bancadas, plateia e qualquer espacinho disponível, mas sim do entusiasmo arrebatador que os mesmos transmitiam: durante as canções, cujas letras longas debitavam febrilmente do início ao fim, mas também nas pausas entre as mesmas, que aproveitavam para aclamar o Rei Kendrick.

Com o seu quê de geek (figura pouco impositiva, provável membro envergonhado do clube dos tímidos), o miúdo de Compton olhava com espanto para a multidão reunida à sua frente – se em 2016 ainda fizer sentido falar em tribos, podemos dizer que quase todas terão estado aqui representadas. Exultando com “Alright” ou “Free”, “I” ou “Hood Politics”, miúdos do hip-hop e do indie, betinhos e rufias, raparigas e rapazes penduravam-se uns nos outros (literalmente!) para melhor verem e acarinharem Lamar, que atrás de si, durante todo o concerto, teve uma só frase: “Look both ways before you cross my mind”, de George Clinton.

O momento em que, visivelmente emocionado, tirou os in ears para ouvir o som direto daquele mar de gente gritando o seu nome (bem, e o de Éder) ficará certamente na memória de quem lá esteve. Mas, se tivéssemos de emoldurar uma sequência daquela noite escaldante, seria aquela em que, no rescaldo de uma semana marcada por tantos atentados e outros acontecimentos trágicos, Lamar lembrou as vítimas dos mesmos e agradeceu aos presentes por se terem deslocado à Meo Arena para “celebrarem a vida” consigo.

Celebrar a vida. Tão simples e tão importante como isso. Na última semana, Portugal viveu também uma série de emoções – quase todas confluindo, de certa forma, na vitória no Campeonato Europeu – que pareceram conhecer ali a catarse possível. Não sei se por falta de hábitos de vitória, se por partilharmos uma disposição tendencialmente macambúzia, sinto que, por vezes, temos como povo uma certa dificuldade para lidar com alegrias desta dimensão. Naquela noite, gente de todas as formas, feitios e cores não teve vergonha de festejar – a vida e esse privilégio de cá estarmos. Foi bonito, muito bonito.