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Já não há bilhetes para o Kendrick: e agora?

Rui Miguel Abreu está em modo de contagem decrescente para o próximo sábado. Será que se vai mesmo fazer história? Ele acredita que sim

Já por aqui tinha argumentado que poderemos muito bem ter, na relação dos festivais portugueses com o hip-hop, um antes e um depois de 16 de julho, sendo que esse é o dia em que o palco principal do Super Bock Super Rock vai receber os nacionais Orelha Negra e os americanos De La Soul e Kendrick Lamar. Esse é também o dia para que já não é possível comprar bilhetes.

Dado curioso sobre a embaixada americana do dia que rematará com chave de ouro a edição deste ano do SBSR: são expoentes de duas gerações distantes no tempo (Kendrick nasceu no mesmo ano que os De La Soul deram os primeiros passos,1987), são resultados do ambiente específico de duas costas opostas e donos de dois discursos muito diferentes sobre o presente da realidade americana: ontem, em conversa mantida para a BLITZ com Maseo, o "homem orquestra" do trio nova-iorquino, fiquei a saber que tem uma admiração profunda por Kendrick Lamar, "por tudo o que representa e que tem dito à América", mas, ao mesmo tempo, o homem dos De La Soul demarcou-se do comentário político através da sua música: "o que se passa é demasiado grave para uma canção", confessou-me, "há outros capazes de o fazer, mas no meu caso, as minhas opiniões, os meus gestos, terão que ser pessoais e reais, não artísticos".

Em termos de volume de bilheteira, o SBSR será um festival médio, mas no plano artístico não há nada de mediano nesta edição: o cartaz tem argumentos para se agarrar à história e o último dia, já o disse, será certamente memorável. Porque K-Dot não é um artista qualquer.

Kendrick ainda não completou 30 anos, tem uma carreira de maior visibilidade internacional apenas com quatro anos, tem o respeito do Presidente da América, tem a atenção das ruas onde se empunham cartazes com os dizeres "Black Lives Matter", tem o conforto do apadrinhamento de Dr. Dre, mas também a credibilidade de ser um dos expoentes da TDE onde militam outros artistas - irmãos de armas, literalmente - mais subterrâneos, mas igualmente intensos como ScHoolboy Q, que acaba de editar um impressionante Blank Face. É um artista singular, não é um fenómeno pop como Macklemore (o último rapper a pisar o palco da Meo Arena, se a memória não me falha, e o autor do famoso tweet de 2014 em que admitia ter "roubado" o Grammy que K-Dot merecia), ou um veterano como Snoop ou Kanye, outros expoentes hip-hop que pisaram palcos grandes de festivais em Portugal.

No mesmo ano em que Kendrick lhe viu o Grammy de melhor álbum rap ser negado, o cartaz do Primavera Sound do Porto arranjou espaço para a sua apresentação. Na altura, a reportagem BLITZ deu conta de um concerto testemunhado por fãs de "entusiasmo febril" que se "concentravam nas primeiras filas". Não há como não acreditar que, dois anos volvidos, esse entusiasmo contagie agora filas e bancadas de toda uma arena que vai estar ali sobretudo para o ver. Em dois anos, a carta fora do baralho de um cartaz indie nortenho transformou-se no trunfo de um Super Rock lisboeta. Quem tem bilhete vai, certamente, ver história a acontecer. Quem não tem, certamente, vai lamentar não se ter posto em campo atempadamente. Mas não me parece que Kendrick vá andar muito arredado do nosso país nos próximos tempos...