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Vender discos já não é o principal argumento de sucesso

O primeiro semestre de 2016 mostrou, no maior mercado mundial da música, que os valores do consumo por streaming estão a impor um novo paradigma que deixa de ter as vendas de álbuns como índice que mede a sua popularidade. Além disso, este é um mercado a começar a recuperar após mais de dez anos de quedas sucessivas

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Os números são impressionantes e acabam de ser revelados pela Billboard: nunca se venderam tão poucos álbuns nos Estados Unidos (que são o maior mercado mundial da música gravada), mas nunca se escutou tanta música! E não estamos a juntar a pirataria a esta equação, já que todos os valores que desenham este jogo de contrastes são absolutamente legais. A diferença entre as vendas em queda e o crescimento do mercado têm uma explicação simples: o triunfo em todas as frentes do streaming como nova forma de consumo de música.

Mas voltemos aos números. Segundo os dados relativos ao primeiro semestre de 2016 revelados pela Nielsen Music (que continua assim a estabelecer relatórios que antes nos chegavam via SoundScan), os valores destes seis meses traduzem as mais baixas vendas de álbuns desde 1991. A quebra é na ordem dos 13,6 por cento face ao ano passado, situando-se as vendas em cerca de 100 milhões de discos. O maior trambolhão é sentido pelo CD, que cai 11,6 por cento, somando um total de 50 millhões de unidades. Mas também as vendas por download resvalaram dos 53,7 milhões de álbuns no mesmo período em 2015 face aos 43,8 milhões deste ano. No sentido inverso, as vendas em vinil, mesmo em valores mais discretos, subiram 11,4 por cento e atingiram os 6,2 milhões de discos, o mais vendido dos quais foi Blackstar de David Bowie, com um total de 570 mil unidades.

No total dos álbuns, em todos os formatos, foi Drake aquele quem mais discos vendeu, sendo Views um dos três discos que ultrapassaram a fasquia do milhão de unidades. Os outros a subir além deste valor foram 25 de Adele e Lemonade de Beyoncé.

Ainda entre os números as quebras mais acentuadas nas vendas de álbuns situaram-se entre os discos novos, com um decréscimo de 20 por cento face a 2015. Já os discos de fundo de catálogo – ou seja, os álbuns antigos dos mais diversos artistas – caíram apenas 7,7 por cento.

A venda de faixas avulso, que fora ainda recentemente uma das “conquistas” do mercado de vendas de música por donwload, sofreu também uma quebra significativa, dos 531,6 milhões no primeiro semestre de 2015 para os 404,3 milhões agora divulgados.

Mas nem todos os valores são de descida... Ao contrário de todos estes casos (salvo as vendas em vinil), os dados que a Billboard acaba de divulgar mostram um crescimento significativo no consumo de música por streaming. Houve nestes seis meses 208,9 mil milhões de canções escutadas, correspondendo a 139,2 álbuns, num pulo de 58,7 por cento face ao ano passado. Destas “audições” por streaming os valores das plataformas de áudio suplantaram as dos serviços em vídeo (como o YouTube).

Em conjunto, os consumos totais deram para este semestre de 2016 um crescimento de 8,9 por cento. Confirmam-se assim as tendências dos últimos anos mostrando como, depois de anos a fio de quebras de vendas em grande parte devidas ao consumo “pirata”, o streaming, mais do que a venda do download, está não só a definir um novo paradigma de consumo como a desenhar novos tempos de florescimento para uma indústria que assim começa a superar uma das suas mais violentas etapas de quebra. Não tão grande como a que, entre 1929 e 1932 (ou seja, em plena “grande depressão”) viu desaparecer cerca de 90 por cento dos seus rendimentos. Mas desta vez foi mais de uma década a resvalar de ano a ano... Tudo parece estar agora a mudar. Mas é ainda cedo para cantar vitória.

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