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Rodrigo Amarante - Festival Super Bock Super Rock 2015

Rita Carmo

Amar Amarante

Na semana passada, Rodrigo Amarante passou por Portugal para cinco concertos a solo. Dias depois, a magia ainda não se evaporou

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Praticamente uma semana depois do concerto no Tivoli, em Lisboa, ainda dou por mim a acordar com canções de Rodrigo Amarante na cabeça. O fenómeno torna-se ainda mais curioso quando nos lembramos que Cavalo, o único disco a solo do brasileiro até agora e fonte maior de material dos seus espetáculos, já foi lançado há pelo menos dois anos (a data de edição depende dos países e até dos continentes; eis um equídeo que já percorreu o mundo, num calmo mas insistente galopar).

Quando Cavalo começou a chegar a ouvidos portugueses, disse-me uma voz amiga, e distraída, que, ao escutá-lo pela primeira vez, sem conhecer o seu autor, julgou que Rodrigo Amarante, quarentas primaveras no próximo mês de setembro, era um daqueles veteraníssimos artistas perdidos no tempo, cuja obra misteriosa alguma editora melómana teria recuperado. Um Rodriguez do Rio, quem sabe. Escutar canções como «Tardei» ou «Irene» não nos remete, realmente, para uma época específica, nem mesmo – apesar do português que falam alguns destes temas – para a MPB mais reconhecível à primeira escuta. Como qualquer obra sem idade certa, Cavalo tende a envelhecer bem e, na primeira noite desta digressão de cinco datas por Portugal, soou-me mais mágico do que nunca.

Talvez por ter sido a primeira vez que vi o carioca a solo, fora de contexto festivaleiro, todo o serão me soube a estreia. Perceber como agarra a atenção da plateia – feita de fiéis e devotos, mas em todo o caso desejando seduzida – com nada mais do que voz, violão e um pianito revelou-se fascinante. Olhando os fãs com aquele esgar de águia e munido de um humor delicioso, falou do avô que lhe ralhava por nunca ir à terra dos seus antepassados – Amarante, claro está – nas várias visitas a Portugal, prometendo levar, desta feita, o fantasma do senhor à cidade nortenha, numa espécie de «turismo espiritual». Confessou que, depois de oito anos a viver na Califórnia, é com estranheza que encontra, no regresso a casa, uma versão mais velha dos pais que conserva na memória. Acedeu a pedidos, tocando até «Tuyo», a canção que escreveu para o genérico da série Narcos.

«Perigo total, disponibilidade absoluta!», brincou a certa altura, naquele jeito brincalhão de quem, não querendo dizer as coisas, as vai dizendo. De calça branca («parece um brasileiro!», comentaria certamente a minha avó), apresentou-se como um «completo amador», no sentido de quem ama o que faz, e talvez seja esse o segredo de um concerto destes. Com canções que já trouxe várias vezes a Portugal, sem banda ou efeitos especiais de qualquer espécie, teve o teatro pelo beicinho e, em canções como «O Cometa», que revelou ter escrito com o amigo e poeta Ericson Pires em mente, espalhou a mesma magia que Cavalo, o disco, emana. Ouvi-lo desvendar a ligação entre «I’m Ready» e «The Ribbon» e outros segredos de um trabalho que promete ficar connosco por muito tempo foi como abrir um baú cheio de cartas pessoalíssimas, há muito fechado, esperando a altura certa para ser descoberto.

Tal como o avó de Amarante, Ericson Pires «não existe mais», expressão com que o músico repetidamente se referiu a pessoas que já nos deixaram. Já em processo de escrita de um novo disco, é provável que o brasileiro sinta que Cavalo também já não existe. Mas, pela marca renovável que continua a deixar nas nossas memórias, é possível que venhamos a recordá-lo como um improvável, mas delicioso, clássico do século XXI.