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E tu, o que é que andas a ouvir? (o Discão de Verão)

Algumas das canções que mais têm rodado (força de expressão) por aqui em tempo de veraneio. E memórias dos verões de há 30 e tal anos

Mais do que balanços provisórios da colheita de 2016, são apontamentos para ajudar a dar ordem ao que nos dá prazer. À semelhança do que já fiz no final do inverno e em plena primavera, aqui fica a resposta possível à demanda mais complicada com a qual um escriba deste ofício é confrontado: a inquirição informal sobre novidades, que normalmente é seguido de um “ui, deixa-me pensar” ou “vou ter de ir aos apontamentos”. Mas primeiro vou lá atrás e já volto.

Em 1983, os meus apontamentos não existiam. Se, então, algum colega da 1ª Classe me perguntasse o que andava eu a ouvir (altamente improvável, ninguém me fez essa pergunta até aos 14 anos), responderia garbosamente: O Discão de Verão. O Discão de Verão – compilação de sucessos sazonais semelhante a Jackpot ou Número 1 (esta no início dos anos 90) – foi a primeira cassete de música não infantil que me foi oferecida, provavelmente pelos anos. O precioso auxílio do Discogs.com permite-me aquilatar que há 33 anos a minha dieta musical ia de Vitorino (“Menina Estás a Janela”) a José Malhoa (“Amor de Verão”, como não lembrar este clássico do synth-pop de feira?), mas o que a memória conserva melhor é a épico-repetitiva “Ballo Ballo” da italiana Raffaela Carrà que ainda deve rolar em loop numa sala fechada do meu cérebro.

No ano seguinte dei o salto. Novo aniversário – o sétimo – celebrado no verão, nova cassete de sucessos. Desta feita, Holiday Star (capa bem sugestiva) e um cardápio muito mais apetitoso. Lembro-me de todas: do tema do genérico da novela brasileira “A Guerra dos Sexos” à portentosa “Somebody’s Watching Me”, de Rockwell, com Michael Jackson no refrão, e ao próprio Michael Jackson naquela que se tornaria a minha canção preferida nesse ano, “One Day In Your Life” (perceberia muito depois que se tratava de um original de 1975, mas que criança de 7 anos se importa com isto?). Sim, também havia os imperscrutáveis (para um petiz) Barclays James Harvest e Dire Straits, mas os meus ouvidos estiveram mais atentos a “All Night Long”, de Lione Richie, ou a insidiosa (e proto pimba) “Comment Ça Va”, cançoneta omnipresente em qualquer festa da santa padroeira na primeira metade dos anos 80.

Vou poupar-vos à autobiografia detalhada. No resto dos anos 80 fui agraciado com mais coletâneas com o carimbo “anunciado na TV” – “Jackpot '85”, “Jackpot ‘86”, sei eu lá mais quantas. Na viragem para os anos 90, compilações em cassete eram produto caseiro, com música gravada da rádio. O hábito continuou, com o aparecimento dos CD-R (começo a ver as “mixtapes” como blocos de notas), prosseguiu com a abastança dos MP3 e não afrouxou com o streaming – muito pelo contrário, é assim que me oriento hoje.

Chegado a 2016 no foguetão do Sport Billy, é isto que ando a ouvir. É este o meu “discão“, perdão, “disquinho de verão”.

Angel Olsen - Shut Up Kiss Me

Depois de uma incursão em sintetizadores dolentes que prenunciava o pior (o single anterior, "Intern (Trailer)"), a incrível Angel Olsen regressa ao rock arisco de "Forgiven/Forgotten" e deixa a salivar por My Woman, novo álbum que sairá em setembro.

Deerhoof - The Devil and His Anarchic Surrealist Retinue

Uma das bandas mais confiáveis do rock desalinhado dos últimos, ena, 20 anos, regressa com um álbum tremendo, The Magic, com mais ideias por minuto do que... ok, não vou falar do último EP dos Strokes.

Cat's Eyes - Drag

A candura habitual no projeto que une Faris Badwan, dos Horrors, à cantora ítalo-canadiana Rachel Zeffira, a contrastar com um videoclip em modo "horror flick" doméstico.

Car Seat Headrest - Fill In The Blanket

2016 já não seria o mesmo sem eles. Teens of Denial é um portento de indie rock com sangue a bombar e o concerto no Primavera Sound portuense só reforçou a impressão de que estamos perante uma banda para a vida (nem que seja só para um bocadinho da vida). Agora cantemos: "You have no right to be depressed / You haven't tried hard enough to like it / Haven't seen enough of this world yet / But it hurts, it hurts, it hurts, it hurts".

The Divine Comedy - "Catherine The Great"

De novo com um aparato orquestral de se tirar o chapéu (o escriba já escutou o álbum que sairá em setembro), Neil Hannon regressa com uma bonita canção que vai ganhando asas à medida que se carrega em "repeat".