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Um hino político para tempos de incerteza

Uma versão de um clássico dos Abba pode ser o mais certo hino político para os tempos que correm. Em leitura pelos Portishead, e com um teledisco que homenageia a figura de Jo Cox, “S.O.S.” é uma canção que ganha agora outro sentido.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Pode uma canção dos Abba, revisitada pelos Portishead, transformar-se em mais do que apenas um episódio de afirmação de admiração por uma obra que tantas vezes foi mais olhada de soslaio do que com a admiração que de facto justifica? Pode sim. E ao vermos o teledisco que há poucos dias foi criado para acompanhar uma reinterpretação recente de “S.O.S”, os Portishead fizeram até de um velho clássico dos Abba um possível hino a ter em conta neste momento de profundas convulsões pelas quais passa o Reino Unido.

Mas vamos por partes. Estávamos em março de 1975 quando depois de uma sucessão de singles menos bem sucedidos que haviam surgido após o imparável “Waterloo” que dera a vitória eurovisiva aos Abba em 1974, é com “I Do I Do I Do I Do I Do” que o quarteto sueco diz ao mundo que não é nome a juntar ao batalhão de one hit wonders. E, poucos meses depois, é ao som de “S.O.S.” que reforçam uma vez mais essa ideia, cimentando com este novo single que são, afinal, uma força maior a ter em conta no panorama pop/rock internacional.

A canção, que correspondeu ao terceiro single extraído do álbum (de 1975) ao qual simplesmente chamaram Abba deu-lhes uma mão cheia de números um, surgindo então no topo das tabelas de vendas da Austrália, Nova Zelândia, França, Bélgica, Alemanha e África do Sul. E, com os anos que foram passando, transformou-se num clássico que foram inevitavelmente recordando em paco e, depois, teve lugar garantido nas antologias de êxitos do grupo. Era então uma canção traçada entre a melancolia de uma história de perda e a luminosidade de uma composição que fazia acreditar que melhores dias haveria pela frente. Era uma canção de amor. Pessoal. E quando, há alguns meses, os Portishead partiram desse velho clássico dos Abba para criar uma versão sua, para integrar na banda sonora de High Rise (espantosa adaptação ao cinema de Arranha Céus de J.G. Ballard, ainda à espera de ter estreia entre nós, a operação – que nos dava uma espantosa versão – pouco mais parecia promover que um olhar respeitoso e inteligente para com um episódio na história de uma das mais bem sucedidas carreiras na música pop. Mas poucos dias antes do referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia, um teledisco, com dedicatória em memória da deputada trabalhista Jo Cox assassinada poucos dias antes, fazia inesperadamente desta canção um poderoso e arrepiante hino sobre o momento particularmente preocupante pelo qual o mundo agora passa.

Filmado a preto e branco, quase sugerindo um olhar sobre uma imagem fixa, mas mostrando na reta final um gesto de Beth Gibbons que não deixa dúvidas sobre o sentido do que vemos no pequeno ecrã, o teledisco que agora acompanha “S.O.S.” faz de uma canção que parecia condenada a ser memória meramente festiva do passado dos Abba ou um momento esteticamente desafiante na banda sonora de um filme recente, um fortíssimo hino político para os dias de muitas incertezas que vivemos em 2016.

E, se com uma versão de “Like an Angel Passing Through My Room”, pela mezzo soprano Anne Sofie Von Otter já tinha começado a cair por terra alguma má vontade (antiga) na forma de entender hoje o lugar da música dos Abba na história da música popular, esta nova versão dos Portishead vai talvez ajudar a libertar muitos (velhos) preconceitos.

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