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Festivais 2.0 precisam-se

Os festivais de verão, tais como os conhecemos, chegaram a um ponto de amadurecimento tal que exigem mudanças Mais tarde ou mais cedo vão ser necessárias novas fórmulas e novos conceitos

No fim de semana passado teve lugar em Inglaterra o mais carismático dos festivais europeus. Não sei exatamente se Glastonbury é o maior festival em número de espectadores, mas a sua história e a sua atual reputação tratam de o transformar num evento sem paralelo. É por isso que Adele, que não faz festivais, atuou lá. É também por isso que os Coldplay, que também não fazem festivais durante a presente digressão, por lá passaram com o cuidado de tornar o seu concerto numa festa da qual participou Barry Gibb, dos Bee Gees, para cantarolar “Stayin' Alive”.

Manter-se vivo é, hoje em dia, uma preocupação generalizada numa Europa cheia de medos. Mas no que respeita aos festivais, onde se reconhecem vários casos de sucesso, começa a notar-se o esgotamento de um modelo que cresceu até atingir os seus limites. A partir daqui não há mais nada; ou o que há é muito pouco. O que se pretende discutir não é o fim dos festivais. Estamos muito longe de aí chegar. O que se pretende debater é um conceito que, devido ao seu bom êxito, já não permite crescimento. O aumento do preço dos bilhetes, que se começa a notar um pouco por todos os festivais, é uma solução de curto prazo que, essa sim, pode trazer más notícias. O futuro pede novas soluções.

Voltemos a Glastonbury: o truque utilizado pelos Coldplay de convidar um Bee Gee (e também Michael Eavis, o octagenário que inventou aquele festival) é um sinal de que as atuações das bandas, por si só, já não chegam para criar a experiência que tanto público como patrocinadores exigem aos produtores dos festivais. É um grau de exigência cada vez maior e que, no que respeita ao cartaz, tem em Coachella o seu melhor exemplo. Os cabeças de cartaz do festival do deserto de Indio são obrigados a apresentar concertos especiais, na maior parte dos casos apimentados por participações ímpares e únicas, capazes de transformar aquela noite na tal experiência irrepetível.

Mas, se me é permitido e mesmo que por cá essa ainda seja uma fórmula pouco testada, trata-se de espremer as últimas gotas de uma laranja que está perto de ficar sem sumo. As notícias sobre o futuro de Glastonbury ainda são vagas ou mesmo contraditórias. Mas depois dos acontecimentos deste ano, com especial ênfase para os engarrafamentos de trânsito que obrigaram estudantes que moram na zona a faltar aos exames ou a filas de mais de 12 horas, já se percebeu que algo vai mesmo ter que mudar.

Há quem fale no aumento da lotação – como se isso revolvesse algum dos problemas de curto prazo – mas também num novo evento com um conceito diverso (como Emily Eavis, filha do fundador) ou mesmo uma localização diferente para o festival Glastonbury (como é o caso do pai). Qualquer das saídas resulta da situação em que se encontra o festival nestes dias: lotações esgotadas com meses de antecedência (e ainda sem que seja conhecido o cartaz) e transtornos vários nas comunidades da região em que tem lugar.

Em Portugal, até ver, não temos nada parecido. Mas não vale a pena esconder a cabeça na areia. O aumento do preço das entradas, que este ano já se começou a sentir, é uma tendência que veio para ficar. Mas não é o elixir da eterna juventude e muito menos uma solução de longo prazo. A época de ouro dos festivais está, muito provavelmente, prestes a terminar. Os maiores, tanto como os mais pequenos, vão ter que se reinventar. Vai ser preciso encontrar novos espaços se os atuais já não cumprem, oferecer melhor condições se aquelas que hoje existem são lamentáveis, alterar o perfil do cartaz caso este não satisfaça os público mais voláteis, ou dar mais, mais, mais e mais ao público e aos patrocinadores. Alguns festivais terão mesmo que fechar portas.

Mas os maiores, aqueles que têm grande relevância junto do público, dos media e das empresas vão, cedo ou tarde, ter que encontrar novos conceitos diversos daqueles que hoje existem. A música pode ser apenas um dos fatores de atração. E, lá para trás, esquecidos no passado, vão ficar certamente os eventos com um ou dois palcos e umas barracas de comes e bebes. A exigência de todos os envolvidos – isto é, o mercado – pede cada vez mais. E, como em tudo, quem encontrar a fórmula adequada é que vai vencer.