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Minta and the Brook Trout

Vera Marmelo

São canções, senhores, são canções

Na sexta-feira, Francisca Cortesão levou as canções de Minta & the Brook Trout à ZDB, no domingo passou com os They're Heading West e Sérgio Godinho pela Casa Independente. Vamos sempre a tempo de descobrir estas canções

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em setembro de 2009 dei um saltinho à Alemanha, para visitar uma amiga e descansar a cabeça. Apanhei um daqueles outonos luminosos e dourados, que aproveitámos para pequenos passeios e grandes conversas junto ao Reno. Dadas as curtas distâncias percorridas, também andámos bastante de comboio, e nessas viagens ouvia com frequência uma compilação que guardara no leitor de MP3, com os meus «grandes êxitos» da altura. Esta – uma das primeiras canções que conheci da Francisca e para sempre uma das minhas favoritas – estava lá, tão aconchegada com as outras e com aqueles dias de sol manso que na passada sexta-feira, quando na ZDB se ouviu «give it up to those who have the guts...», foi como se voltasse àquela semana de pausa para pensar.

Desde então, Francisca Cortesão já fez muitas outras maravilhosas canções. Na sexta, partilhou – com a sua bela banda – uma que começa com a deixa «I've never read a single page of the Bible», e quando ia para casa de metro, meia-noite e tal, estava um rapaz à minha frente a ler esse mesmo livro; em «Plaid and Denim» canta-se sobre o gato da minha irmã («the neighbour's cat coming home real proud, a sparrow caught between his teeth»); «Holy Trinity» ou «Family» são das canções mais doces e cruéis, logo verdadeiras, sobre aqueles que nos criaram. A noite foi bonita e a música muito bela, mas voltamos sempre ao começo. E ainda bem.

«Give it up for those who have the guts to hurt who they love, they really have to».

Antes de Slow, o disco novo que Francisca, Mariana Ricardo, Bruno Pernadas (o novo guitarrista dos Brook Trout, substituindo Manuel Dordio), Margarida Campelo (nas vozes, teclas e outros maviosos apontamentos) e Tomás Franco de Sousa (na bateria) apresentaram na ZDB, saiu, em 2012, o inspiradíssimo Olympia. Outra grande coleção de canções apuradas ao pormenor, o segundo disco de Minta & the Brook Trout pede o nome emprestado à cidade norte-americana por onde a banda passou, numa das suas digressões pela costa oeste, e onde há 34 anos nasceu a editora K Records, com a qual esta trupe sente evidentes afinidades estéticas. Recentemente, foi noticiado que, devido a graves dificuldades financeiras, o mentor da K!, Calvin Johnson, colocou à venda a sede da editora que deu ao mundo discos de Beck e Mirah, Melvins ou Kymia Dawson. A juntar à falência recente dos festivais ATP, eis mais um prego no caixão do sonho independente, que por cá vai sobrevivendo graças ao empenho e à paixão de músicos como estes que hoje destacamos.

Depois do serão de sexta na ZDB, no domingo Francisca Cortesão e Mariana Ricardo apresentaram-se novamente em Lisboa, desta feita ao volante da carripana They’re Heading West, na Casa Independente, com um convidado ao qual o predicado «especial» não chega para fazer justiça: Sérgio Godinho.

Chegamos a segunda e é tempo de redescobrir Slow, um disco cujo título não só descreve a passada lenta das canções como acaba por dar indicações sobre o modo ideal de consumi-las: sem a pressa que marca o nosso quotidiano, com toda a disponibilidade do mundo para encontrar segredos & delicadezas em canções como «Little Falls», cujo arranque se faz com a precisão milimétrica de um conto bem contado:

«I’ve never read a single page of the Bible and sleep wants nothing to do with me».

Boas leituras!