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UK, 1986

Há trinta anos, os Dire Straits dominavam a tabela de álbuns no Reino Unido. As músicas mais ouvidas eram de Billy Ocean ou Chris de Burgh. E, no entanto, ele (o Reino Unido) movia-se: o indie pop “nascia” com uma cassete do New Musical Express que apresentava Primal Scream, McCarthy, Pastels e Wedding Present a quem já tinha no coração os Smiths ou os Felt. Bendita a hora

Sim, 1986 é o ano de The Queen Is Dead, dos Smiths, ou de Forever Breathes The Lonely Word, dos Felt, dois álbuns perfeitos sem os quais o mundo seria um lugar mais triste para se viver. Mas não é isso que as rádios ou os DJs da nostalgia por encomenda nos dizem: qualquer festarola revivalista vai carimbar 1986 com “When The Going Gets Tough, The Tough Get Going”, de Billy Ocean, “The Final Countdown”, dos Europe, “Take My Breath Away”, dos Berlin, “I Want To Wake Up With You”, de Boris Gardiner, ou “Don’t Leave Me This Way”, dos Communards. O cliché compreensível: estas foram as canções que mais venderam no ano em que Brothers In Arms, dos Dire Straits, passou 10 semanas seguidas no primeiro lugar do top de álbuns do Reino Unido. Se quisermos entrar nas comparações homólogas: nesta mesma semana era Invisible Touch dos então já quase veteranos Genesis quem mais lucrava; sete dias antes, A Kind of Magic, dos Queen. Pop yuppie, o mainstream de adulto para adulto – enquanto os putos gastavam a semanada em singles de novelties ou previsíveis one hit wonders, os pais atiravam-se aos álbuns de artistas estabelecidos.

E no entanto, ele – o Reino Unido – movia-se. No subsolo, germinava uma pop mais esquelética, deliciosamente underachiever, do-it-yourself por manifesto, quase sempre engajada politicamente (à esquerda, em tempo de vigência tory, que duraria mais dez anos), mas também debatendo os desafios de uma juventude desalinhada. Orgulhosamente independente. Baseada sobretudo em guitarras jangly ou arranhadas com fervor, melódica mas também noisy, disseminava-se através de pequenas editoras (e pequenos formatos), e nem sempre se fixava em álbuns. “Era tão iconoclasta e humana e tão ferozmente independente que estava para além da autenticidade”, escreveu, há dez anos, Nicky Wire, baixista dos Manic Street Preachers. Era divulgada em fanzines, mas foi uma compilação em cassete lançada pelo semanário New Musical Express que tratou de lhe cunhar um nome: C86.

Do alinhamento fazem parte Primal Scream, Soup Dragons, Pastels, McCarthy ou Wedding Present – nomes que evoluiriam para posições de maior destaque na música britânica, evidência maior no primeiro caso –, mas também os hoje esquecidos The Mackenzies (lançaram apenas um 7 e um 12 polegadas) e Miaow (não chegaram ao LP, mas deixaram “Grocer’s Devil Daughter”, sobre Margaret Thatcher), ou casos de longevidade (mas sempre à margem dos maiores canais de visibilidade) como o dos Half Man Half Biscuit (treze álbuns). Futuras associações: os Soup Dragons evoluiriam para a cena baggy nos anos 90 (de onde sairiam músicos para os Teenage Fanclub ou para formar Future Pilot AKA); os marcantes (e uber-políticos) McCarthy (“We Are All Bourgeois Now”, “The Procession of Popular Capitalism…) estão na génese dos Stereolab. Fora da compilação, mas dentro da mesma família estética, os BMX Bandits, Vaselines, Talulah Gosh... E muitos mais.

Trinta anos depois, duas compilações em CD tratam da preservação da memória: a primeira, CD86: 48 Tracks from the Birth of Indie Pop, foi lançada em 2006, com dedo de Bob Stanley, dos Saint Etienne; a segunda, uma versão expandida da cassete original com 3 CDs, foi editada pela Cherry Red em 2014, com seleção a pertencer ao curador original, Neil Taylor (e a incluir um livreto com um extenso texto retrospetivo). Ouvi-las é encarar um mundo diferente, um Reino Unido distante. Mas que estava mais perto do que hoje.

Nota: a playlist que se segue é o “meu” C86 cruzado com a disponibilidade das canções no Spotify. Mas não é uma réplica da compilação original: não se cinge a 1986, vai além do marco temporal, estende a rede (e, não resisti, remata com um bónus de Felt). Espero que a estimem.