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David Lynch

O que pode trazer de novo o festival de música de David Lynch?

Passam já dez anos sobre a última longa-metragem de ficção que estreou em sala. Com o regresso de Twin Peaks agendado para 2017, David Lynch volta contudo a colocar a música na rota das suas prioridades ao anunciar a criação de um novo festival. E abre espaço a um novo modelo de evento, que pode gerar descendência

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Estará o cinema a ficar definitivamente arrumado como uma memória de outros tempos e outros trabalhos na vida de David Lynch? Fazendo bem as contas, passam já dez anos sobre a estreia de Inland Empire que é, até ver, a sua “última” longa-metragem de ficção. É claro que está a trabalhar num regresso de Twin Peaks (com estreia já apontada a 2017), mas esse é um projeto que, mesmo sendo de ficção, é televisivo. Para pequenos ecrãs, portanto.

De Inland Empire para cá, o cineasta que fez história com filmes como Eraserhead, O Homem Elefante, Veludo Azul, Estrada Perdida ou Mulholland Drive só por uma vez voltou a ver o seu nome nos cartazes de cinema. Aconteceu com a breve passagem por algumas salas do filme-concerto Duran Duran Unstaged, originalmente criado para difusão online e que entretanto teve lançamento em DVD em alguns territórios (Portugal inclusive, numa edição pela Alambique). Estreou ainda uma série de curtas-metragens e assinou telediscos para Moby, Nine Inch Nails e os Interpol. Mas, na verdade, ao longo desta última década, e antes de arregaçar as mangas para reativar o universo de Twin Peaks, foi na música que David Lynch concentrou a maior parte dos seus esforços. Editou discos em várias frentes – da banda sonora para uma exposição sua em Air Is On Fire: Soundscape (2007) à parceria com Chrysta Bell em This Train (2011), chegando mesmo a aventurar-se na edição a solo, tendo já apresentado os álbuns Crazy Clown Time (2011) e The Big Dream (2013). Agora, ao anunciar a curadoria de um novo festival, dá mais um passo nesse sentido, o que assinala mais um polo de atenções longe de um eventual regresso ao grande ecrã.

Chamou-lhe Disruption e é um festival de música a realizar durante dois dias, em Los Angeles. Nos dias 8 e 9 de setembro, no teatro do muito trendy Ace Hotel e em espaços ao seu redor, haverá concertos (no magnífico teatro do hotel), DJ sets, exposições e espaços para algumas conversas.

O alinhamento é impressionante, juntando nomes como os de St. Vincent, Robert Plant (com os Sensational Space Shifters), Sky Ferreira, Rhye, Xiu Xiu ou Questolove (dos Roots, como DJ), com a cereja sobre o bolo numa atuação do compositor Angelo Badalamenti, que apresentará ali a música que criou para Twin Peaks. As conversas – sob o mote “talks, exhibits, virtual reality, dance and film” – contarão com figuras como as do arquiteto Frank Gehry, o ator e humorista Mel Brooks, os músicos Debbie Harry e Chris Stein (ambos dos Blondie) e atores como Kyle Machlachlan e Laura Dern.

Tudo isto fica servido com bilhetes a preços que vão entre os 199 e os 349 dólares. Ou seja, entre 175 e 306 euros... Não é barato. Mas também não é coisa para multidão desmedida. Mas abre um espaço novo e interessante para eventual exploração futura.

No mesmo ano (e na mesma altura) em que o espaço que recebe o Festival Coachella, também na Califórnia, vai acolher um encontro de gigantes – com concertos de Bob Dylan, Paul McCartney, Neil Young, Roger Waters, The Who e Rolling Stones, o festival com curadoria de David Lynch assinala o colocar em cena de um novo espaço de investimento para promotores e terreno igualmente sedutor para quem gosta de ver concertos.

E se o festival “dos veteranos” abre oportunidades a outros públicos, cativando gerações que talvez não frequentassem os festivais da agenda regular de verão, o que David Lynch propõe é algo diferente. E se o preço dos bilhetes pode levantar um debate (sempre interessante) sobre os custos do acesso à cultura, a verdade é que permite em parte a presença de um cartaz deste calibre e uma variedade de oferta de acontecimentos num espaço que não se comparará certamente aos recintos mais habituais em festivais. Esperemos mesmo assim para ver como estes dois festivais correm, sentir as reações de quem os faz e de quem lá for como espectador, para tirar depois primeiras conclusões. Para já, e mesmo sem ter um filme novo, nem aparente desejo de o fazer, David Lynch junta a 2016 um episódio que poderá dar que falar.

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