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Uma década não é nada

Rui Miguel Abreu saúda 10 anos de BLITZ em ritmo mensal

O que são 10 anos no grande esquema das coisas? Nada, certamente. Mas não é de proporções cósmicas que importa falar hoje. A BLITZ, transmutada em revista depois de duas décadas e tal como jornal semanário, nasceu há exactamente 10 anos. Em junho de 2006 começava a aventura de levar mensalmente até aos leitores uma revista que abordasse, com outro fôlego e propriedade, a música que nos liga a todos. A aventura, se me permitem a imodéstia, tem corrido muito bem.

A BLITZ é dirigida pelo Miguel Cadete. Orquestrada pelo Luís Guerra. E executada todos os meses por uma equipa que tem por peças-chave a Lia Pereira, o Mário Rui Vieira, o Rodrigo Madeira e a Rita Carmo. A eles junto-me eu mesmo, na qualidade de colaborador permanente, e mais uma série de valorosos nomes que com diferentes regularidades vão emprestando o seu talento para que a coisa aconteça. E tem acontecido sempre. Sem falhas.

Nestes 10 anos, e se a memória não me falha, eu mesmo só falhei um par de revistas. Férias forçadas a isso obrigaram. E de resto estive sempre presente. escrevi sobre krautrock e rock psicadélico, sobre hard rock e sobre hip-hop, sobre Nick Drake e David Bowie e Tom Waits e Prince e Pink Floyd e Beatles, mas também sobre Tame Impala e Kanye West, sobre DJ Shadow e LCD Soundsystem, sobre FKA Twigs e Beyoncé. Entrevistei muita gente: o Chris Frantz dos Talking Heads e o Van Dyke Parks, o Craig Leon que produziu os Ramones e o Joe Boyd que produziu o Nick Drake, entrevistei o Alice Cooper, o Thurston Moore, o Panda Bear, o Bill Callahan, o Geoff Barrow e o Adrian Utley dos Portishead e o Michael Rother dos Neu! que acabou a passar férias em minha casa. Entrevistei o Rui Veloso e o Boss AC, o Sam The Kid e o Rui Reininho, o Carlos do Carmo e o Camané, a Ana Moura e o Ricardo Ribeiro, o Filho da Mãe e o Norberto Lobo, o Samuel Úria e o Manuel Fúria e outros tipos que não rimam com estes. E vi dezenas de concertos, embora nem de perto nem de longe tantos como os meus companheiros que têm mais milhas de festivais do que quaisquer outras pessoas que conheço.

Quase ninguém acredita quando digo que tenho o melhor trabalho do mundo (não é um emprego, é um trabalho – a diferença fica para outra crónica, se alguma vez calhar...), mas tenho mesmo: consigo escrever com regularidade sobre a única coisa de que realmente percebo (gosto de vinho tinto e de peixe grelhado, de praia e de pintura, de arte sacra e arquitectura, gosto de futebol e de passeios na natureza, de política e de filmes de espionagem, gosto de história das religiões e de skate, mas não percebo o suficiente de nenhuma dessas coisas para escrever sobre elas com propriedade). Gosto mesmo disto. Quando não estou a escrever sobre música, estou a ler sobre música. Quando não estou a ouvir música, estou a comprar música. Quando não estou a pensar sobre música, estou a sonhar com música. Com o Chance The Rapper e o Arvo Part e o John Fahey e os Sonic Youth e o Lee Perry e o Bob Dylan e o Sam The Kid e o Stockhausen e os Velvet Underground e os Fairport Convention e o Prince e os Fleetwood Mac e o Bowie e os outros todos. Os Talking Heads. O Arthur Russell. Os Rolling Stones. O Juan Atkins. Os Tangerine Dream. Os Can.

De uma maneira ou de outra já escrevi sobre todos eles na BLITZ (bem, talvez não sobre o Arvo Part): uns mereceram artigos inteiros, outros referências fugazes (lembro-me de mencionar o Karlheinz a propósito dos Can), uns críticas simples, outros artigos de fundo. Todos mereceram e continuam a merecer a minha atenção. E poder todos os meses abordar alguns deles nas páginas da BLITZ é um privilégio que nunca tomo como adquirido, que sei que exige luta constante e que só é possível porque há muitas vontades a puxarem para o mesmo lado.

Pronto, era isto: não há punchline, nem moral da história, não há remate bem humorado, nem conclusão profunda. Só um redondo e sentido “obrigado”. E o desejo de que daqui a 10 anos possa estar a escrever uma prosa idêntica, com mais nomes e mais música. Uma década não é nada, mas é o suficiente para este “obrigado”.