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Política política, sexo à parte?

Anohni atua esta semana nos coliseus do Porto e de Lisboa e é autora de um novo tipo de canção de protesto. Tal como PJ Harvey

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

É já esta semana que o coliseu do Porto, na terça, e o de Lisboa, na quarta, vão poder assistir ao renascimento da artista anteriormente conhecida como Antony. Não, não é gralha: a pessoa que vimos repetidamente nos palcos portugueses como Antony, à frente do projeto Antony and the Johnsons, apresenta-se desde há um ano como mulher transgénero, e assina agora como Anohni.

“Passei a ser identificada como ‘ela’, em público, como forma de reconhecer, formalmente, a minha experiência”, disse em entrevista à revista E, do Expresso, este sábado. “Sempre me identifiquei como mulher transgénero e esta é uma forma de honrar a minha identidade”.

Às salas nobres da Invicta e da capital, Anohni trará um disco que está a apaixonar velhos e sobretudo novos fãs: em Hopelessness, a pop eletrónica é, segundo a autora, um Cavalo de Troia para fazer passar fortíssimas mensagens sobre política e direitos humanos, ecologia e o futuro desta frágil construção a que chamamos sociedade ocidental contemporânea.

Recentemente, o jornal britânico Guardian referiu-se a estas canções falsamente açucaradas – impossível não ficar a trautear "Drone Bomb Me”, cujo vídeo é protagonizado pela superestrela Naomi Campbell, ou “4 DEGREES” – como exemplos de um novo tipo de canção de protesto, distinção que honrou Anohni.

Na nossa conversa por email (encontrava-se, à data da entrevista, numa marcha pelo deserto australiano, em defesa de um povo indígena e contra a construção de uma mina de urânio que poderá perigá-lo), Anohni esclareceu o sentido das suas declarações: “Poderei ter dito que não há muita música de protesto explícita a ser escrita no mundo da pop ocidental. Mas há vestígios da mesma em toda a parte. Obviamente a M.I.A., a PJ Harvey, e muitos outros”, enunciou, acrescentando ainda à lista Laurie Anderson e Buffy Saint-Marie.

Os dias passam e as memórias vão-se esbatendo, mas ao ler estas palavras não pude deixar de ser transportada para as primeiras filas do NOS Primavera Sound, onde há pouco mais de uma semana assisti ao concerto de PJ Harvey. Como tive oportunidade de escrever então, achei o alinhamento de uma inteligência e coragem raras, colocando na linha da frente cinco canções do novo The Hope Six Demolition Project e três do anterior Let England Shake, dois álbuns altamente politizados.

Pelo menos do local onde me encontrava, não pude deixar de admirar a forma como Polly Jean e a sua banda numerosa conseguiram, com mensagens e temas nada imediatos, conquistar a atenção da plateia. Só mais à frente chegariam os regressos ao passado de “Down By The Water”, “To Bring You My Love” e, numa viagem ainda mais remota e desabrida, “50 ft Queenie”, do segundo álbum da inglesa, Rid of Me, de 1993.

Eis a PJ Harvey sexual, pensei, naquele misto de apreciar o espetáculo e analisá-lo, para dali a nada poder escrever. E logo de seguida me ocorreu que o sexo nunca deixou de ser política – Miss Harvey pode, nos dias que correm, dirigir a sua atenção para o mundo, ao invés de para o seu corpo ou o seu desejo, mas tudo isto existe e tudo isto é o fado de uma carreira onde a coerência não tem faltado.

Numa altura em que as questões de género estão cada vez mais na ordem do dia, tratar o sexo como questão menor não faz sentido. Agradeço a Anohni por, numa singela entrevista por mail, me ter deixado a pensar nestas ligações mais ou menos evidentes e aguardo com alguma expectativa saber que espetáculo trará a Portugal a pessoa que justificou desta forma a sua nova pele. O que mudou, afinal?, perguntei. “Mudei eu, enquanto pessoa que se desvalorizava desnecessariamente”. É de pessoa.