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Porto ou Barcelona: o nosso Primavera Sound é melhor do que o deles?

Finalizada a quinta edição da versão portuguesa do festival nascido em Espanha, é tempo de tomar partido

Maio de 2002. Tinha despido a farda de trabalho, Barcelona não ficava tão perto quanto isso (as low cost ainda estavam para aterrar por cá) e, depois de uma longa viagem no banco de trás de um carro, pousei a bagagem no bairro do Born com as mesmas dores de barriga hediondas com que deixara Lisboa muitas horas antes, saído de um concerto dos Mooney Suzuki em Cacilhas (don’t ask) e um criminoso bacalhau com natas. A festa de apresentação da segunda edição do Primavera Sound Barcelona, na Sala Apolo, foi um suplício não por culpa dos … And You Will Know Us By The Trail of Dead (a única banda que recordo dessa noite), mas porque uma intoxicação alimentar não é propriamente a melhor bagagem para a aventura.

Por esses dias, o Primavera Sound era um festival novo, tentativa de fazer vingar um certame urbano numa era em que festival de verão era sinónimo de campismo e praia – vide Benicàssim, que visitei no ano anterior numa edição inesquecível já por aqui dissecada. Realizava-se em vários espaços do Poble Espanyol, um parque temático sobre as regiões de Espanha, em Montjuïc. O cenário do palco principal, uma réplica das praças centrais das cidades espanholas, não deveria ser muito maior do que a plateia do Coliseu de Lisboa.

O Primavera Sound era, então, uma espécie de “boutique festival” alargado, que um ano antes se realizou apenas durante um dia, com Armand Van Helden como maior chamariz e um cartaz eminentemente composto por nomes ligados à música eletrónica e DJs. 2002 foi o ano em que o Primavera Sound começou a ser mais parecido com o festival que hoje conhecemos – mas em pequeno, muito mais pequeno.

No dia seguinte, já mais recomposto, encetei uma jornada de dois dias da qual retenho concertos de Pulp, Tindersticks, Spiritualized, Le Tigre, Gonzales e Moldy Peaches. Em letras pequeninas, no cartaz, encontro hoje também Cat Power – não me lembro de nada, não sei se por culpa minha ou por culpa dela.

A boa experiência de um festival desafogado com um cartaz bem apreciável fez com que repetisse a experiência, um ano depois. Novamente de automóvel, a trocar periodicamente de lugar com mais quatro convivas, lá fomos felizes e contentes de Lisboa e Barcelona a entoar o cântico da “Seven Nation Army”, a canção dos White Stripes que se preparava para ser o hino do ano.

Despachadas as bagagens num apartamento alugado em El Guinardó, zona que não cabe em todos os mapas do centro de Barcelona, o festim foi ainda maior – e não foi só por causa do melhor estado de saúde deste que vos escreve. Senão vejamos: The White Stripes (claro!), Belle & Sebastian, Sonic Youth, Television, Teenage Fanclub, Mogwai, Julian Cope, The Go-Betweens, Folk Implosion, Yo La Tengo… Preço do passe de dois dias? 62 euros.

O mesmo sítio, agora com o espaço consagrado ao palco principal a rebentar pelas costuras, a perfeita noção de que este festival tinha dado um salto e se preparava para “explodir”. Menos quando chove: aí toda a gente se abrigou longe da praça principal e gente portuguesa prevenida vestiu os impermeáveis e viu o concerto das suas vidas, bem à frente e de braços erguidos. Meg e Jack White fizeram por isso.

Para minha estupefação, o Primavera Sound ainda voltaria no ano seguinte a realizar-se no Poble Espanyol, naquela que seria a sua derradeira edição na categoria de “festival de pequena ou média dimensão”, mas eu só regressaria em 2010, de férias, para três dias de palmilhar constante entre palcos (tantos), com sobreposições de concertos a toda a hora e o “print” de um ficheiro excel com a distribuição e horários para não me desorientar. Acabei estafado, a desejar ter passado mais tempo a beber vinho ou a comer pintxos no Poble Sec, e os concertos que guardo no coração foram aqueles que vi de início ao fim, não os que estavam assinalados como “espreitar um bocado, mas depois ir [não sei para onde] ver [outra coisa]”.

Agora no Parc Del Fòrum, o Primavera Sound Barcelona é um festival de betão com muito boa música – mas um festival de betão, com demasiado betão, poucos espaços de descanso, e com demasiados palcos e com demasiada música. Queixo-me, naturalmente, de barriga cheia: 2010 foi ano de ver Pavement, Real Estate, Circulatory System, Grizzly Bear (num anfiteatro, sentado), Spoon, Wire e – epifania! – Low a interpretar na íntegra o magnífico The Great Destroyer no Auditori Fòrum (uma sala de espetáculos “à parte” dentro do recinto, mas a requisitar bilhetes também à parte”). Dizem os registos que também houve Florence + The Machine, Pixies, Wilco, The xx, Thee Oh Sees (que já perdi mais vezes do que não), Pet Shop Boys, Beach House e Mission of Burma, entre muitos outros. Terminado o festival, apetecia-me descansar do festival, isto é, descansar de uns dias de férias. Não faz grande sentido.

A edição portuense do Primavera Sound foi, naturalmente, uma boa notícia. Pensei em quatro razões: o Porto cosmopolita do século XXI não tinha um festival de média dimensão para uma imensa minoria (parafraseando o slogan da XFM) – aliás, o Porto não tinha um festival; a versão portuguesa iria assumir-se como uma versão “selecionada” (com alguns grandes nomes a menos) do mega evento espanhol (ou seja, mais comportável para quem não quer encarar um festival como um hipermercado); o preço seria a condizer com a escala (daqui a três dias entram à venda os primeiros passes para o evento espanhol, a 145 euros; por cá, é de esperar que se abata cerca de metade desse valor); o espaço do festival, o Parque da Cidade do Porto, é uma maravilha e, portanto, muito melhor do que o de Barcelona, ponto final.

Com o suceder de edições no Porto, todas estas notas prévias foram sendo acentuadas: no Porto passeia-se, em Barcelona atropela-se; no Porto descansa-se na relva, em Barcelona há um concerto escondido no palco xpto que faz com que nos esqueçamos de descansar (e afinal já só se apanhou o fim); no Porto há quatro palcos onde toda a gente consegue ver o que se passa em cima deles (mesmo que chegue em cima da hora), em Barcelona há engarrafamentos que se confundem com o público de um palco; no Porto a distribuição do cartaz é como um repasto de onde nunca se sai mal disposto, em Barcelona há um buffet de casamento, onde se deixa de comer o marisco porque já nos empanturrámos com leitão; no Porto o elenco todo cabe na cabeça (e nas pernas), em Barcelona, ao fim do dia, descobre-se que houve uma reunião dos Beatles a tocar o White Album no palco Paraíso e nós não reparámos. A minha versão rabujenta também manda dizer que no Porto também há menos ingleses bêbedos a rebolar no chão e a entornar pints para cima de mim e dos meus e menos espanhóis a ser espanhóis (ou seja, a conversar com o volume no máximo) - e isso, sendo capricho, é de valor.

No fim de contas, são as memórias que sobram que nos ajudam a contar a história: ao Porto voltava amanhã, a Barcelona daqui a uns anos, quando começar a tomar suplementos de cálcio. A menos que estejamos a falar de pintxos no Poble Sec.