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Escutemos os cabelos brancos

O novo álbum de Paul Simon, Stranger to Stranger, que é um dos melhores discos que vamos escutar este ano, é mais uma prova de que há entre os músicos veteranos uma etapa de renascimento criativo que nasce da experiência acumulada de muitos anos entre os estúdios e os palcos

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Quando Elvis, os Beatles, ou até mesmo os Roxy Music faziam os seus discos, a ideia de vermos um músico com cabelos brancos era coisa rara em terreno pop/rock. Eram mais frequentes os cabelos brancos entre maestros, instrumentistas ligados a orquestras ou mesmo solistas (mas em terreno clássico), um ou outro bluesman ou jazzman, um ou outro cantor ou cantora em terreno musical menos... jovem. Como dita o tempo, que corre (irrevogavelmente) a um ritmo de 24 horas por dia, sete dias por semana, 52 semanas por ano, a cultura pop/rock cresceu, ganhou maioridade, fez veteranos. E hoje, 60 anos depois do álbum de estreia de Elvis, a ideia de ir a um festival no qual um palco tanto pode ser pisado por um jovem estreante promissor como por um veterano de carreira longa não é nem motivo de surpresa nem admiração. É habitual. E habitual vai sendo também verificar que o avançar na idade não implica necessariamente uma lógica de nostalgia e de ligação prioritária das carreiras mais longas aos valores (mais fáceis) da memória.

Se fizermos um retrato rápido do que têm sido as edições recentes de músicos cujas carreiras não começaram há meia dúzia de semanas ou meses ou anos, notaremos que, entre vários, tem havido momentos suficientes para se começar a constatar que, além da mais habitual e “clássica” ideia de que há talento a brotar nas carreiras em tempo de afirmação, há também uma outra etapa na vida dos músicos pop/rock em que, tal como entre os grandes maestros e veteranos do jazz, o tempo de vida, as experiências somadas, o saber acumulado, se projetam em novos picos de grande criatividade.

Veja-se, por exemplo, o percurso que Bob Dylan tem vindo a talhar nas duas últimas décadas. Depois do bom momento ao som de Time Out Of Mind (1997), que lhe valeu uma noite de glória nos Grammys, a sua obra recente tem revelado uma sucessão de belos discos como não fazia desde meados dos anos 70. Também Leonard Cohen, “obrigado” a regressar à estrada e aos estúdios quando não tinha mais esses destinos na linha do seu horizonte, revelou nos dois novos discos de inéditos gravados recentemente mais e melhores ideias do que naqueles que lançara em inícios do século, entre 2001 e 2004.

Paul McCartney ainda não fez o sucessor para o visionário álbum electrónico de 1980, mas tem entre seus discos mais recentes alguns dos seus melhores títulos. Kate Bush, após longa pausa, revelou tanto em Aerial como 50 Words For Snow dois momentos de reinvenção e excelência. Scott Walker não abranda a sua pulsão exploratória, como mostra nos álbuns que, de tempos a tempos, mostra como vai longe tanto o teen star como o crooner que foi nos anos 60. David Bowie, após dez anos de silêncio, e antes de nos deixar, fez de The Next Day um dos seus melhores discos de rock e de Blackstar uma das suas obras-primas... E tenho pena, muita pena, que não possamos nunca saber o que fariam Michael Jackson ou Prince quando chegados à idade de um Mick Jagger...

Todo este percurso entre veteranos teve contudo um motivo. Ao escutar Stranger to Stranger, álbum que Paul Simon edita aos 74 anos de idade, senti entre as canções um fulgor de surpresa e desafio que sublinham todo este quadro que observa, de facto, a existência de todo um quadro de possibilidades junto de quem soma já longos anos de trabalho na música. Trinta anos depois do belíssimo Graceland, onde, contra o embargo cultural então lançado contra a África do Sul, foi contra o politicamente correto e mostrou como a arte pode dialogar por vezes mais do que a política e, 26 após The Rhythm of Saints, disco no qual continuou a exercitar esse gosto pelas pontes entre músicas e geografias (trazendo também desta vez ecos do Brasil), Paul Simon voltou a focar a atenção em instrumentos e sons de outros lugares e timbres para criar não só a terceira parte de uma trilogia (encetada por esses dois álbuns) e também um dos melhores discos da sua carreira.

Stranger to Stranger é um disco de reencontros. Não só com fontes instrumentais de outras paragens (porém, ao contrário de Graceland e The Rhythm of Saints sem traduzir na verdade uma geografia concreta), mas com um velho colaborador que, nos tempos em que fazia dupla com Art Garfunkel, percebeu que a melhor forma de gravar as harmonias vocais de ambos era através da utilização de apenas um microfone em frente aos dois músicos. Roy Halee, que nem sequer sabia trabalhar com algumas das novas ferramentas em estúdio disponíveis no século XXI, mas que esteve a bordo quando Paul Simon gravou Graceland e The Rhythm of Saints, é mais uma peça veterana num jogo de saberes e sabores que faz deste novo disco uma experiência afinal tão fresca e vibrante como a de uma ideia acabada de nascer.

E agora? Nada como ouvir o disco! Boas audições. Boas (re)descobertas.