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“Stairway to Heaven” contra o povo

O julgamento que ontem começou sobre a autoria de “Stairway to Heaven” reveste-se de enorme simbolismo. A música popular pertence a quem?

Não sei qual vai ser a sentença neste processo que opõe o putativo autor de uma canção escrita há 45 anos contra Jimmy Page e Robert Plant, dos Led Zeppelin. Na verdade, não estou muito interessado nisso. Mas sei que o julgamento que ontem teve início e que levou à barra do tribunal os dois autores dos Led Zeppelin pode fazer jurisprudência e transformar-se num monstro de várias cabeças.

Vamos por partes: Michael Skidmore, músico e compositor, é o representante do também músico já falecido Randy Wolfe. Este último fazia parte dos Spirit, uma banda psicadélica dos anos 60 que algures na sua carreira gravou uma canção chamada “Taurus”. Ora, Michael Skidmore, na qualidade de representante de Randy Wolfe, pretende que a canção “Stairway to Heaven”, um dos maiores ícones da obra dos Led Zeppelin, é um plágio de “Taurus” dos Spirit. Trata-se da disputa da autoria de uma canção, algo que não é inédito na história da música popular. Não é a primeira vez que sucede nem será, certamente, a última.

Acontece que, no caso dos Led Zeppelin, essas acusações são recorrentes. A Jimmy Page é, amiúde, apontado o dedo por ter copiado ou por se ter inspirado decisivamente nesta ou naquela canção para escrever temas que foram gravados pelos Zeppelin ou até por outras formações de que fez parte. Existe, inclusivamente, um site que apenas se dedicada a mapear as fontes de inspiração do guitarrista e principal compositor dos Led Zeppelin.

Acontece que a questão não reside apenas na defesa do orgulho ou na honra de quem compôs o quê. O valor dos direitos de uma canção como “Stairway To Heaven”, um êxito com décadas de longevidade e que faz parte de todos os manuais de história da música rock, pode ser suficiente para levar uma vida (ou duas) regalada. Não há estimativas, mas trata-se de uma maquia que certamente ascende a vários milhões de dólares. O veredicto, de acordo com o juiz que preside a este julgamento, será conhecido dentro de três ou quatro dias.

Repito-me: não me parece que seja o mais importante. O que aqui realmente importa é a abertura (ou não) de uma caixa de Pandora cujas consequências não são, de todo, previsíveis. A música popular, ao contrário da erudita, ou daquela que é fixada através de notação, é isso mesmo, popular. A sua via prioritária de transmissão é a oralidade. Diria que o seu grande autor é o povo, por ela apenas ser relevante exatamente quando se imiscui na vida das pessoas e a afeta fora dos contextos que são próprios da música. Quando influencia as sociedades politicamente. Por isso é, obviamente, sem autor. Ou mesmo desautorizada.

A fixação de autorias na música popular e/ou tradicional será sempre um bicho de sete cabeças. O que não teria nenhuma importância caso não estivessem em jogo milhões e milhões de dólares. Seja qual for a decisão do juiz, a pretensão de tornar a música popular em erudita, terá certamente consequências sérias de ora em diante. Para um lado ou para o outro. A música pop pode deixar de ser pop. Pior seria se a música pop deixasse, contudo, de ser música.