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Paris, França; Orlando, Flórida; Velvet Underground... O turismo assombrado

Rui Miguel Abreu e a nuvem cinzenta que hoje parece perseguir quem pensa ainda em turismo cultural num mundo pós Bataclan e Pulse

Há uma ligação muito forte entre Paris e os Velvet Underground. A capital francesa é, ou foi historicamente na cabeça de tantos pensadores e nas ruas reais de tanta gente, uma cidade de revoluções e de liberdade.

Em 1968, em maio e mais além, muito provavelmente a estreia dos Velvets patrocinada por Andy Warhol, The Velvet Underground & Nico, estaria nos gira-discos de muitos estudantes nos dormitórios da Sorbonne e provavelmente as suas canções até podem ter inspirado alguns dos slogans que inundaram os muros de poesia e a revolução erguida nas ruas em cima de barricadas de sonhos e utópicas ideias de liberdade. Poderá, por exemplo, "Run Run Run" ter inspirado "Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês"?

"Só a verdade é revolucionária" era outro dos slogans do Maio de 1968 e os Velvet, com canções como "I'm Waiting For The Man" ou "Heroin", estavam a ser cruamente honestos, repórteres de uma realidade nua e consequentemente revolucionários eles mesmos.

Em 1972, Nico, Lou Reed e John Cale juntaram-se para tocar no Bataclan uma série de canções dos Velvet Underground e de cada um dos intervenientes. Foi a última vez que os três pisaram o mesmo palco, mas não a última vez que a carreira dos Velvet Underground se cruzou com Paris. Em 1990, depois de editarem Songs For Drella, Cale e Reed reuniram-se com os seus antigos companheiros Sterling Morrison e Mo Tucker para tocarem "Heroin" durante uma homenagem a Andy Warhol em Jouy-en-Josas, nos subúrbios de Paris, momento que serviu de catalisador para a reunião fugaz de 1992 e 1993, que se traduziu numa curta digressão internacional incluindo uma residência no L'Olympia, que rendeu depois LiveMCMXCIII.

A longa história dos Velvet Underground com a Cidade Luz desemboca agora em The Velvet Underground - New York Extravaganza, exposição patente na Philarmonie de Paris que promete imersão no universo do mítico grupo americano e que eu irei ver daqui a algumas horas, devidamente acompanhado pela minha família. Viemos a Paris por causa dos Velvet Underground. E por causa de Amadeo de Souza Cardoso, do Louvre, de um par de lojas de discos e de umas quantas catedrais. E connosco veio também o medo.

Este medo não é uma coisa presente e avassaladora, mas sente-se quando, ao telefone, nos despedimos da família que está em Portugal e a quem ligamos para dizer que chegamos bem: "tenham cuidado, isso aí deve ser perigoso". Sente-se nas metralhadoras dos soldados que patrulham as ruas. Sente-se na parede do apartamento Airbnb em que o dono meteu um mapa com indicações para visitar o Bataclan, que fica perto.

Sejam quais forem as motivações dos assassinos que tomaram vidas em Paris em novembro passado ou há um par de dias em Orlando, na Flórida, a conclusão é apenas uma: a sala de concertos rock ou a pista de dança eram talvez dois dos últimos lugares onde o espírito enunciado nos slogans de 68 ainda parecia resistir: "10 horas de prazer já"; "Eu gozo"; "Os jovens fazem amor, os velhos fazem gestos obscenos"; "A felicidade é uma ideia nova"; "Ainda não acabou"; "Enraiveçam-se"; "Abolição da sociedade de classes"; "Sejam realistas, exijam o impossível"; "É proibido proibir"; "A liberdade do outro estende a minha ao infinito"...

O Maio de 68, o ruído libertário dos Velvet Underground, Paris, a pista de dança de Orlando: tudo símbolos de uma liberdade que poderá estar a esfumar-se se deixarmos o medo levar a melhor. Quando em 1993 fui a Londres com a minha cara-metade ver os Velvet Underground tocarem em Wembley, a sala de concertos ainda era esse espaço de liberdade. E até este fim de semana, a pista de dança ainda era, em qualquer parte do planeta, esse micro-cosmos de igualdade, de exercício de felicidade, de abolição de diferenças, um sítio onde realisticamente se podia exigir o impossível ao DJ: não permitir que a batida terminasse para que todos pudessem ter "10 horas de prazer já". Que salas de concerto e pistas de dança poderá a Inês, 20 anos, esperar conhecer no futuro? Muitas, espero, se o medo não as fechar a todas.