Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

O que é que tem o NOS Primavera Sound que é diferente dos outros

Acarinhado pelo seu público ao longo de quatro edições, o NOS Primavera Sound é um evento cheio de especificidades. O que o distingue, afinal, dos restantes festivais?

Sérgio Godinho não atuou em nenhuma das quatro edições que, desde 2012, levaram o NOS Primavera Sound até ao Parque da Cidade do Porto. Mas a sua canção “Barnabé”, publicada em 1972 no álbum Pré-Histórias, um dos melhores da história da música urbana portuguesa, pode começar a dar pistas para uma resposta. Para já, deu o título a esta prosa.

O NOS Primavera Sound é diferente dos outros porque, além do cartaz (já lá vamos), sucede num espaço que tem características ímpares para um festival. Apesar de se desenrolar no perímetro urbano da segunda maior cidade de Portugal, acontece num parque cuja beleza é indisputável e as condições para a realização de espectáculos verdadeiramente apreciáveis.

Ora, isto é importante pois não só garante a facilidade de acessos – precisamente por estar dentro da cidade do Porto – como produz a sensação de evasão que só a Mãe Natureza é capaz de proporcionar a um público que passa o resto do ano mergulhado no caos e turbilhão das grandes urbes. Qualquer marketeiro de segunda linha sabe que, num festival de música, tão ou mais importante que o cartaz é a “experiência” em que este é capaz de envolver o público. O Parque da Cidade, no Porto, é fator de diferenciação entre os festivais de verão. Em Portugal só o Rock in Rio, que desde a primeira hora ocupa o Parque da Bela Vista, tomou uma opção semelhante.

Claro que o cartaz é o outro fator predominante, capaz de oferecer especificidade ao NOS Primavera Sound. Ainda que limitado pelas escolhas do seu franchiser de Barcelona, e também por um orçamento que impede a presença dos artistas que exigem cachets de primeira linha, o NOS Primavera Sound aproveitou essas condicionantes para construir alinhamentos que privilegiam artistas conotados com o eixo indie-alternativo.

Só muito recentemente começaram a surgir em Portugal eventos franchisados, que tiveram origem noutros países. E, já se sabe, neste caso o historial do Primavera Sound de Barcelona é também uma ajuda inigualável para a construção dessa imagem. Vale a pena recordar que, em Espanha, essa é uma história que vem desde 2001 e que, aos poucos, foi captando fãs um por toda a Europa e não só. A esse respeito, o da captação de um público estrangeiro, o NOS Primavera Sound só encontra paralelo no NOS Alive.

Se olharmos para os números adiantados pelas empresas produtoras de festivais, então veremos que o NOS Primavera Sound se encontra no escalão dos festivais de média dimensão. Isto é, não se dirige a um público tão generalista e massivo como o Rock in Rio Lisboa ou o NOS Alive, mas possui capacidade para atrair cerca de 70 mil pessoas ao longo dos três dias que dura.

São valores que decorrem precisamente do facto de ter um cartaz que privilegia nas suas opções a música de determinados nichos e, a esse respeito, só terá comparação com o Super Bock Super Rock.

Ora, esteas são caractrerísticas que, na minha modesta opinião, fazem com que o NOS Primavera Sound consiga o melhor de dois mundos. Está na cidade mas ocupa um espaço em que a Natureza domina gloriosamente. Permite ao público certa intimidade na fruição da música sem ser demasiadamente fechado. E, por fim mas não por último, tem uma política de género musical que lhe oferece identidade sem se deixar fechar em nichos muitos reduzidos.

O NOS Primavera Sound é diferente dos outros? Pois é. Assim possa continuar a manifestar essa diferença.