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The National em 2005, ano em que foi editado "Alligator", o seu terceiro álbum

Alligator, uma ferradela com 11 anos

O terceiro álbum dos norte-americanos The National fez em abril 11 anos e continua fresco e apaixonante

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Há certas bandas que nos lembramos de ter conhecido como se de pessoas falássemos. Sei que estava à secretária de um dos meus primeiros empregos quando recebi um CD com vários discos gravados. Em 2005 o streaming ainda não se usava como meio de transmissão rápida de novidades, e a Raquel Pinheiro, que dirigia a revista Mondo Bizarre, juntou num CD vários álbuns que pensou poderem ser do meu agrado. Esqueceu-se de os identificar mas, mal «Secret Meeting» começou a cobrir de estrelas os meus headphones, soube que estava a ouvir o novo disco dos The National. Dias antes, vira alguém falar sobre Alligator no extinto Fórum Sons e, ainda que o post elogioso não tivesse um único áudio, o reconhecimento foi-me fácil, imediato, intuitivo. Sem pesquisar pela letra ou usar o Shazam, ainda por nascer, percebi que disco estava a ouvir. Curiosamente, não me foi evidente a importância que os seus autores viriam a ter na minha vida de melómana, e não só. “Grower” é epíteto colado com frequência às canções da banda norte-americana, e sem dúvida que foi com tempo que as mandíbulas deste réptil foram fazendo sentir o seu poder.

Inicialmente, fui conquistada pelas canções mais rock e imediatas (“Abel”, “Mr. November”, “Lit Up”) e só meses – sim, meses – mais tarde regressei a Alligator para, progressivamente apaixonada, me deixar embeiçar pelo disco como um todo. Sei que, no que toca às nossas bandas do coração, quase sempre preferimos os discos que escutámos primeiramente, mas neste caso acredito que, mesmo que tivesse apanhado a história noutro capítulo (em Boxer ou High Violet, por exemplo), a minha predileção recairia sempre sobre a melancolia pura e trôpega de Alligator.

Numa altura em que a banda faz de Portugal uma segunda casa, pode ser difícil de acreditar, mas quando Boxer, o sucessor de Alligator, foi editado, Matt Berninger e seus comparsas só haviam tocado por cá uma vez: em 2005, naquele mítico verão em que a Paredes de Coura rumaram Arcade Fire e Nick Cave, Queens of the Stone Age e Foo Fighters. Não pude ir, falta a vermelho que compensei aproveitando umas férias na Alemanha para vê-los num pequeno clube em Berlim, em maio de 2007, e acompanhando a sua posterior peregrinação pelo nosso país. Dos grandes festivais às romarias mais improváveis (vê-los nos jardins do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, quando Boxer ainda brilhava tanto como a lua sobre o castelo, ficará para sempre no caderno das minhas melhores recordações), carimbei o passaporte uma boa dezena de vezes, em noites tão belas, ou tão desastrosas, como a música e os amigos que sempre me acompanharam.

No passado mês de abril, celebraram-se as 11 primaveras de Alligator, o culpado de toda esta devoção que, três álbuns e várias miudezas depois, me continua a soar tão encantador como das primeiras vezes que o ouvi com ouvidos de sentir. Entre projetos paralelos tão escorreitos como uma nova banda – os Elvy, de Berninger – ou ambiciosos como a quíntupla compilação de homenagem aos Grateful Dead, os The National continuam vivos e, em julho, regressam a este país onde repetidas vezes foram felizes para puxar o lustre à prata da casa e, quem sabe, apresentar uma ou duas canções novas, como este fim de semana fizeram num concerto de solidariedade em Ontario, no Canadá. Se uma delas chegou à net numa mini-versão de meio minuto, na outra ("The Day I Die") pressente-se a mesma energia nervosa que – também – me fez tirar o cartão de sócia, há mais de dez anos.

A 14 de julho, lá estarei, como estaria para me encontrar com uma pessoa que ainda hoje me lembrasse perfeitamente de ter conhecido. Porque há bandas assim.