Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Radiohead: será que precisamos assim tanto deles?

Vai ser tão bom o novo dos Radiohead, não foi?

Dizem os meus registos (obrigado, Discogs, pelos serviços prestados) que tenho 11 discos dos Radiohead, o primeiro adquirido no ano da graça de 1995 – foi o EP My Iron Lung, lançado do ano anterior.

Para “entrar” nos Radiohead precisei, como quase todos os meus contemporâneos, de me esquecer de que aquela era a banda que, uns anos antes, havia posto “Creep” numa compilação do Fido Dido. Na ressaca de tudo o que era grunge, no virar de página pós-Kurt Cobain (um cenário de mortandade que a meio dos anos 90 era preciso reverter), “Creep” era um sério candidato a "one-hit wonder" e um artefacto de um passado mal enterrado, mais do que uma pista para um futuro pintado de fresco.

O facto de, ao mesmo tempo, a canção ter sido o arranque de uma das carreiras mais gabadas dos últimos 25 anos, mas não propriamente o sintoma do que haveria de vir, faz dos Radiohead um caso notável. O que eles são devem-no, muito, à exposição de “Creep”, mas sobretudo à forma como conseguiram que muito boa gente aderisse aos Radiohead apesar de “Creep”, julgando estar a ouvir outra banda (um poder tal que agora, controlando o ciclo da nostalgia, se servem da “maldita” para nos enganar a todos e nos fazer acreditar – nostalgia por decreto, pois então – que sempre precisámos dela).

A minha relação com os Radiohead foi duradoura: The Bends (melhor disco?) tinha as guitarras que eu precisava de ouvir em 1995. OK Computer representava a aventura das descobertas musicais dos meus 20 anos: tenho quase a certeza de que comprei todos os discos que apareceram referenciados nas críticas ao álbum no NME ou no Melody Maker. E, já no exercício da função, abracei a reinvenção de Kid A (mais) e Amnesiac (menos) com o respeito (que é diferente de devoção) que se vota a quem parece querer indicar-nos o caminho. Foi aí que o fã encontrou o crítico e a relação começou a azedar: Radiohead já não era apenas música para sentir, era também música para pensar. "Whatever happened to my rock and roll?", perguntavam por esses dias os Black Rebel Motorcycle Club.

Nos anos seguintes, provavelmente porque o fã foi sentir para outros lados, desliguei-me dos Radiohead (não obstante ter apreciado Hail to the Thief e gostado muito de os ver numa das noites épicas no Coliseu de Lisboa) e na segunda metade da década passada comecei a desenvolver um certo cinismo em relação a Thom Yorke e comparsas: demasiadas manobras, demasiado marketing, demasiado planeamento a fingir que não há manobras, não há marketing, não há planeamento. Uma banda que diz sim para dizer não e diz não para dizer sim. E uma banda que – agora fala o fã, investido da subjetividade inerente à condição – passou a fazer álbuns cada vez mais desinteressantes (como quase todas as bandas que já se fartaram de fazer álbuns bons) e sobre a qual se passou a sublinhar a forma em detrimento do conteúdo (provavelmente porque a forma passou a ser o conteúdo).

De que se fala hoje quando se fala de um novo álbum dos Radiohead? Das mensagens crípticas, da simbologia, das empresas com nomes de canções, da rede, do negócio. E, de repente, tudo o que o purista considera que está mal neste fatal capitalismo passa a ser o génio de quem tem a rédea dos seus haveres e não precisa de mais ninguém para chegar ao coração do fã, exceto a empresa de relações públicas responsável pelas últimas campanhas de U2, Paul McCartney, David Bowie, Arcade Fire, Beck, Blur, Foo Fighters, LCD Soundsystem, PJ Harvey ou Queens of the Stone Age.

Mais tarde do que cedo (porque não tive sobre o novo disco qualquer necessidade de abordagem, digamos, profissional), precisei de ouvir a música para silenciar o barulho à volta dela. Chamem-lhe birra, mas correu mal. Se já tinha achado tudo o que veio a seguir a In Rainbows (Yorke a solo e Atoms for Peace incluídos) um ambiente enjoativo em que um "air wick" procura disfarçar um problema de esgotos, com A Moon Shaped Pool fui realmente sedado (ou gaseado, ainda não percebi). Sempre que há orquestra a sobressair, a parada sobre muito (“The Numbers” é uma enorme canção que vai direta para o Olimpo; “Burn The Witch” é um single certeiro como os Radiohead já não tinham há demasiado tempo), mas o resto é quase new age, música de fundo, um moribundo a querer que lhe peguem na mão pela última vez. Admito que será sempre uma questão pessoal (e de expectativas, e de confrontação do que é novo com um percurso existente, meu e deles), mas acredito que a música que mais interessa hoje está noutro lugar.