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O mistério do navio que mudou a música de um arquipélago

A edição internacional de uma antologia de temas dos anos 70 e 80 que refletem a presença de teclados electrónicos e de novas formas musicais assumidas por artistas de Cabo Verde surge acompanhada com uma narrativa com travo de ficção científica

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

E se um barco misterioso, de repente, mudasse toda a vivência musical de um grupo de ilhas?... A história, que tem todos os ingredientes para um belo filme com alma de ficção científica, com uma pitada de mistério, alma festiva e banda sonora irresistível, é contada na ocasião da edição de uma antologia que junta gravações clássicas de space disco (sim, “space disco”) e outras iguarias dançáveis, com origem em Cabo Verde nos anos 70 e 80. E depois de lida a história, que pode ter tanto de mitologia como de verdade, e escutado o disco, confesso que não sei de qual gostei mais. Ambos são, no mínimo, incríveis.

Comecemos pela história (tal e qual nos é contada na página do Bandcamp da editora Analogafrica):

Corria a primavera de 1968 quando, no porto de Baltimore (nos Estados Unidos), um navio era carregado com um transporte de instrumentos musicais com destino a um evento a realizar no Brasil. Eram instrumentos novos, visionários. Os novos teclados electrónicos da Moog, Rhodes, Korg, Farfisa, destinados à Exposição Mundial do Som Eletrónico, que ia ter lugar pouco depois no Rio de Janeiro. Era a primeira vez que uma exposição do género se realizava no hemisfério sul e a expectativa era enorme. Mas, a 20 de março, apesar do mar calmo, o navio desapareceu dos radares. Meses depois, certamente sem que houvesse notícias ali perto dessa exposição, do “caso” do navio ou da nova música electrónica, o navio dá à costa da ilha de São Nicolau, em Cabo Verde.

A história ganha contornos de ficção científica quando, como relata a página da Analografica que apresenta este disco, são supostamente chamados cientistas portugueses para tentar explicar o sucedido. Uma das menos plausíveis das teses levantadas sugeria que tivesse caído de um transporte aéreo russo que, então, levaria o navio a bordo... Mais estranho, nota o texto, são as alegadas marcas de partículas cósmicas encontradas no navio, assim como a deformação na proa, que sugeria um aquecimento extremo como que se tivesse entrado na atmosfera, vindo do exterior... Na verdade um processo semelhante teria reduzido o navio a partículas, tal e qual acontece com os satélites quando reentram na atmosfera e caem na Terra. E, sem explicação, o navio ali estava, com a carga intacta...

Chegou ordem para abrir os contentores. O que havia lá dentro?.... A deceção foi, conta-se, total... Eram instrumentos elétricos e, naquele lugar onde o navio acostara, não havia ainda eletricidade... O texto conta que, depois de a carga ter sido inicialmente armazenada na povoação mais próxima, Amílcar Cabral terá mandado distribuir os instrumentos pelas escolas das ilhas que tinham instalação elétrica. Aqui a cronologia dos factos não ajuda lá muito a narrativa, já que o fundador do PAIGC morreu em 1973, ou seja, dois anos antes da independência e de uma real capacidade de um líder poder fazer cumprir uma ordem semelhante à escala do arquipélago. Seja como for, dada a ordem por quem a tenha emitido, antes ou depois da independência (que é algo não fica claro no texto da editora), em meados dos anos 70, havia por escolas de todo o arquipélago um lote raro de teclados incríveis... Muitas crianças começaram a aprender a usá-los. E a música que fizeram acabou por traduzir toda esta história. Foi mesmo assim?

Para já, a verdade é que “Space Echo – The Misyery Beyond The Cosmic Sound of Cabo Verde Finally Revealed” é, além de uma antologia com título comprido, uma deliciosa incursão sobre diálogos que os teclados de primeira geração estabeleceram com formas e géneros musicais característicos de Cabo Verde, desafiando-os, transformando-os. Paulino Vieira, que terá sido um dos muitos entre os primeiros a tocar nestes teclados, é (com a sua banda) um dos nomes mais presentes num alinhamento que junta ainda figuras como Bana, António Sanches, Quirino do Canto, Abel Lima ou Tchiss Lopes. Juntos, em 15 temas agora disponíveis em CD, num LP duplo ou nos serviços digitais de streaming, abrem portas à (re)descoberta de sons que fizeram parte da história musical de Cabo Verde e que, com este disco, podem agora não só chegar aos portos que o navio de 1968 deveria ter ligado, como ao resto do mundo.

Quanto à história, até que haja quem possa enviar equipas dos Ficheiros Secretos a São Nicolau para averiguar da verdade ou fantasia sobre os factos relatados, fica para já uma narrativa que serve uma banda sonora que se junta a tantas outras que, nos últimos anos, têm dado a conhecer uma variedade enorme de formas, géneros e abordagens entre os caminhos que a música africana tomou nas últimas décadas do século XX. Mais dia menos dia saberemos o que há de ficção e de realidade no destino daquele navio misterioso. Mas convenhamos que, com toda a carga dramática de uma boa mitologia pop, o disco não podia ter conhecido melhor narrativa para ser apresentado.

Podem ouvir o disco aqui.

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