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Isto não é um texto sobre José Cid

Pegando na ideia veiculada por Johnny Lydon em “This is Not a Love Song”, Rui Miguel Abreu garante nada ter a dizer sobre o caso Trás-os-Montes Vs. Cid

Isto não é um texto sobre José Cid.
Isto não é um texto sobre José Cid.
Isto não é um texto sobre José Cid.
Isto não é, sequer, um texto sobre Trás-os-Montes.

A canção que Johnny Rotten aka Lydon fez com os seus Public Image Limited em 1983 e que um ano depois foi incluída no álbum This is What You want... This is What You Get, era, em boa verdade, uma canção de amor. Não de amor romântico, de paixão adolescente, mas do amor pela revolução, pela mudança, pelo combate. Uma canção de amor pela liberdade. Um amor que tem que ser de infância, de adolescência, de idade adulta, de vida e de morte.

Este texto também não é sobre José Cid ou sequer sobre Trás-os-Montes, mas pode ser sobre essa mesma liberdade que inspirou Rotten em 1983 e, acho que o posso garantir, durante praticamente toda a sua vida.

A liberdade de dizer disparates.
A liberdade de pedir desculpa.

A liberdade até de mudar de opinião em relação a coisas que se disseram há meia dúzia de anos num contexto tão particular quanto um programa de televisão que tinha à frente um humorista. E passar os limites, do bom senso nomeadamente, não é uma das maiores provas de liberdade que o humor tão bem conhece?

Isto também não é um texto sobre Trás-os-Montes que conheço razoavelmente, que bebo e como sem pestanejar, mas não tão bem – falo ainda do conhecer – quanto me apetece conhecer tanto mundo que há por aí, cá dentro e lá fora. Mas pode ser um texto sobre a liberdade, que todos devemos reclamar, de possuir um espírito crítico, de não oferecermos ao desbarato esse bem tão precioso que é o nosso poder de indignação, sobretudo quando tanto mais de tão mais grave existe que nos devia indignar a todos.

Pegando noutra canção dos PiL (vão ao YouTube agora buscar a “Rise”, sff), eu poderia estar certo, ou poderia estar errado, isto podia ser preto ou podia ser branco. Cantava o poeta podre – esse mesmo, o Lydon – que “chegou o tempo de uma segunda pele em que o custo é tão alto e o ganho tão miserável”. “Rise” é do álbum seguinte, o imaginativamente titulado Album, de 1985, muito antes da internet e das indignações avulsas e ridículas, mas poderia ser uma frase sobre esta condição digital em que todos parecemos viver imersos, esta segunda pele, que tanto custa e tão pouco nos oferece em troca. Custa nomeadamente a liberdade dos outros. A liberdade ao absurdo e à opinião livre. Não concordar com o que o outro diz, mas valorizar muito mais a possibilidade de ele o dizer do que a vontade certamente egoísta de o censurar.

Isto não é um texto sobre José Cid ou sobre Trás-os-Montes, nem sobre o que foi dito há seis anos, mas sobre o que se passa agora. “A raiva”, diz também Rotten/Lydon em “Rise”, “é uma energia” e “a palavra escrita uma mentira”. E a falada em programas de televisão, então? Escrituras? Gospel?

Isto não é um texto sobre José Cid, sobre Trás-os-Montes ou sobre os PiL. Mas se querem gospel, acreditem no que vos digo: vão mas é ouvir o novo do Chance The Rapper.