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Música para respirar fundo em época de festivais

William Tyler, Steve Gunn e Glenn Jones têm discos novos. As suas guitarras ajudam-nos a respirar fundo numa época em que o volume festivaleiro é rei e senhor

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Como qualquer pessoa que não viva arredada do mundo saberá, chegou ontem ao fim mais uma edição do Rock in Rio Lisboa. Para a equipa da BLITZ, cobrir um festival destas dimensões significa passar muitas horas não só a ver concertos, como a (tentar) escrever sobre os mesmos em salas de imprensa ruidosas por natureza. Nada contra: faz parte do jogo dos festivais trabalhar com o som dos vários palcos, e também das demais atrações do recinto, como pano de fundo. Mas a certa altura da jornada é tentador dar uso aos phones que por sorte levámos na mala para nos tentarmos concentrar na prosa que, com o avançar dos dias – e das noites – vai fluindo com maior dificuldade.

Ontem, dia em que Ivete Sangalo bisou na Bela Vista, substituindo Ariana Grande e antecedendo a festa da reforma antecipada do jovem Avicii, socorri-me do mesmo músico que, aqui na redação da BLITZ, me acompanha a escrita de artigos de maior fôlego. Nascido em Nashville, no Tennessee, há 36 anos, William Tyler faz, grosso modo, discos de guitarra. Sem letras, sem voz, com poucos instrumentos e efeitos além da sua guitarra acústica, o norte-americano pinta paisagens de uma beleza arrebatadora. É fácil atentarmos à sua filiação estética (John Fahey, Jack Rose…) e encasquetar uma lista de lugares comuns sobre “a América”, as contemplativas viagens pelas largas autoestradas yankee, o pôr-do-sol em tons de laranja que quase conseguimos ver ao escutar discos maravilhosos como Impossible Truth, de 2013, e Behold The Spirit, lançado três anos antes.

Nenhuma destas liberdades poéticas faz, contudo, jus ao imenso talento de Mr. Tyler, que cheguei a ver no Musicbox, em Lisboa, abrindo um concerto do também grande Damien Jurado. Ontem, para abafar o som da tenda mais próxima da zona de imprensa, procurei no Youtube pelo nome deste músico a quem, pela mãozinha que me dá em situações desta natureza, já posso chamar amigo, e encontrei um maravilhoso set ao vivo num festival organizado pelos Wilco, chamado Solid Sound. Pela paz de espírito que me trouxe em pleno bulício festivaleiro, só posso agradecer sugerindo que ouçam, também, esta pequena maravilha.

2016 está, de resto, a ser um ótimo ano para os amantes deste género de música: esta semana, Steve Gunn, que em tempos integrou os Violators de Kurt Vile e que pratica um som mais cheio que Tyler, apresenta o novo Eyes on the Line no GNRation de Braga (hoje, 30 de maio) e na ZDB, em Lisboa (amanhã, 31), ao passo que no início do mês Glenn Jones, fundador da banda rock Cul de Sac, trouxe a quatro cidades portuguesas Fleeting, o mais recente e bucólico capítulo de uma saga escrita, também, com as cordas de uma guitarra acústica (e um banjo). Cereja no topo do bolo, dentro de poucos dias chega Modern Country, o novo álbum de William Tyler que, pelo apaixonante trailer, promete ganhar lugar cativo nos meus auscultadores nos próximos meses.

É música com espaço, e silêncio, para recuperar o fôlego e chegar intacto ao fim de uma temporada em que o volume é rei e senhor. Respiremos fundo para melhor a sentirmos.