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Buraka Som Sistema no Festival Sudoeste 2015

Rita Carmo

De Detroit a Lisboa: a batida que faz a diferença

Rui Miguel Abreu saúda o presidente da câmara de Detroit, que consagra esta semana ao techno, e dá os parabéns a Fernando Medina, que decidiu encerrar as festas da capital deste ano com os Buraka Som Sistema

Mike Duggan, mayor da Motor Town, proclamou esta semana, que se estende até ao próximo dia 30, como a Detroit Techno Week, colocando todo o seu peso institucional atrás do Movement, um festival dedicado à principal exportação eletrónica da cidade, que este ano terá os Kraftwerk ou Four Tet como cabeças de cartaz, ao lado de lendas locais como Kyle Hall ou Kevin Saunderson e Carl Craig.

Detroit tem, já se sabe, uma longa tradição musical: foi uma das fontes do “sound of young America” com a Motown de Berry Gordy; foi proclamada “Rock City” pelos Kiss, epíteto mais do que merecido, tendo sido aí que se impuseram nomes como os Stooges, os MC5 ou, mais tarde, os White Stripes; foi berço de uma fortíssima tradição jazz e blues, com pessoas como Yusef Lateef, Elvin Jones, Betty Carter ou John Lee Hooker a terem aí nascido ou pelo menos a terem reclamado a cidade como a sua principal base.

Detroit é, também, uma das primeiras cidades pós-industriais da América, uma das primeiras vítimas das transformações económicas globais que colapsou financeiramente perante os problemas da poderosíssima indústria automóvel que aí tinha um dos seus principais focos industriais. Hoje, o mayor Duggan vê no techno uma força de renovação, de sobrevivência e de potencial crescimento. E por isso abraça a cultura, uma das mais distintas aí nascidas, que influenciou o mundo de forma inequívoca e que consagrou a visão das “inner cities” em música extraordinária.

As “inner cities” não existem em Lisboa, mas existem as periferias, que têm gerado um idêntico burburinho electrónico que também tem carregado as novas identidades da cidade para fora das nossas fronteiras. De certa maneira, o mayor Fernando Medina reconheceu isto mesmo ao permitir que os Buraka Som Sistema fechem a sua digressão de despedida na cidade que os viu nascer, com um concerto no próximo dia 1 de julho nos Jardins da Torre de Belém. Curioso é que o reconhecimento que vem da instituição autárquica não se estenda à “comunidade” (as aspas aqui traduzem ironia – e não me dispenso deste esclarecimento adicional para que a ideia resulte mesmo clara) da música elctrónica lisboeta.

Passo a explicar: a instituição itinerante Boiler Room, plataforma internacional de divulgação de música eletrónica que promove em cidades espalhadas pelo mundo algumas das melhores festas do género, difundindo-as depois para o planeta internet com streams de vídeo e áudio, regressa a Lisboa para uma festa a 2 de junho, em que entrega o “line up” ao cuidado dos Buraka Som Sistema, que escolheram como aliados nomes como os internacionais DJ Marky ou Dengue Dengue Dengue e os nacionais Batida, DJ Nervoso, DJ Firmeza, DJ Lilocox ou DJ Maboku. Logo que o cartaz foi divulgado, as redes, esses palcos de linchamentos avulsos e de justiças populares, incendiaram-se com críticas: “que raio de alinhamento é este?”, “este som não representa Lisboa”, “isto não é techno nem é nada” e mais mimos do género citados aqui de memória que estas ideias não são coisas que se guardem.

Para lá do indisfarçado racismo de muitos dos comentários e da incapacidade de reconhecer que não é procurando soar igual a Londres ou Berlim que nos vamos afirmar, antes identificando e desenvolvendo um ADN singular, decididamente gerado dentro de portas, mas com óbvio potencial de explosão global – trabalho que Buraka e a Enchufada, primeiro, e a Princípe, depois, fizeram de forma exímia. É assim que se assegura o futuro.

Há 30 anos, imaginou-se o que seria se os Kraftwerk e os Parliament ficassem fechados num elevador apenas com um sintetizador para fazerem barulho. A explosão techno subsequente, que estabelece uma linha directa de Juan Atkins a Richie Hawtin, foi a resposta que o mundo aprendeu a dançar e que o mayor Duggan agora aplaude. Se calhar, daqui a uns anos, Lisboa, cidade de fado e de rock, de jazz e de rap, também vai ter a sua Semana da Batida, com direito a proclamação formal nos Passos do Concelho e tudo, com condecorações municipais entregues a Branko e Kalaf, a Conductor, Riot, Blaya e Marfox, a Pedro Coquenão e DJ Nervoso e a quem mais merecer a distinção. Não me importaria nada de ter uma capital assim..