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A pontualidade britânica de Adele é um exemplo

No passado sábado, a cantora de Londres começou a atuar na Meo Arena pouco depois das 20h. Será possível, mesmo tendo em conta as particularidades culturais e laborais de Portugal, seguir o seu exemplo?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Não devia ser motivo de destaque, mas num país onde os horários de concertos são regra geral tardios, acaba por sê-lo: no passado sábado, Adele estreou-se em Portugal, dando o primeiro de dois espetáculos esgotados na Meo Arena. E se tivemos de esperar uns bons oito anos para vê-la ao vivo, a subida ao palco foi espetacularmente pontual: passavam oito minutos das oito da noite, assevera o meu colega Mário Rui Vieira, quando uma das maiores cantoras da atualidade se apresentou pela primeira vez perante os emocionados fãs portugueses, dando começo a uma noite que arrancou os maiores elogios, quer pela voz da londrina, quer pelo seu sentido de humor e até pela boa qualidade de som da Meo Arena (que recentemente anunciou obras de melhoria da sua acústica, frequentemente atacada pelos espectadores).

Se durante a semana será complicado praticar estes horários por cá, dadas as horas a que boa parte dos espectadores sai do trabalho ou da escola, e o tempo que perde em transportes ou no trânsito, não será legítimo pedir que, pelo menos ao fim de semana, o início dos espetáculos se aproxime mais do que é comum em países como Inglaterra? Ou que, mesmo durante a semana, se encontre um compromisso entre a quase soirée e o show late night?

Ainda na semana passada, vimos o Rock in Rio anunciar o arranque do concerto de Bruce Springsteen, grande cabeça de cartaz do primeiro dia e nome maior desta edição do festival, para as 23h45. Quinze para a meia-noite, meia-noite menos um quarto – as variações regionais na forma de dizer as horas não escondem o óbvio. Da generosidade do Boss não esperamos concertos com menos de três horas, pelo que dificilmente as dezenas de milhar de espectadores se terão deitado antes das quatro da manhã. E falamos apenas, claro, de quem vive ou ficou hospedado em Lisboa. Ao Rock in Rio Lisboa acorrem com frequência numerosos festivaleiros de todo o país, que muito dificilmente terão conseguido regressar às suas cidades a tempo de uma sexta-feira minimamente acordada.

Os horários notívagos não são, obviamente, exclusivos do Rock in Rio, que a Lisboa traz invariavelmente uma organização de louvar, nomeadamente no que toca às entradas e saídas do recinto e condições de segurança. Um pouco por todo o país e todo o tipo de sala, “21h00” é muitas vezes sinónimo de “lá para as 21h30”, o que significa que o concerto poderá começar às 21h45, e que muitos só se preocuparão em chegar à sala pelas 22h.

Numa altura em que Portugal é um nome incontornável em boa parte das digressões internacionais (só este mês, por cá tivemos Adele e AC/DC na estreia com Axl Rose, além de Bruce Springsteen e companhia no Rock in Rio), seria simpático que, ao inegável profissionalismo de músicos e promotoras de espetáculos, se juntasse uma pontualidade mais britânica do que ibérica. Sem querer fazer tábua rasa das conhecidas particularidades culturais e laborais, já seria motivo de festejo que os concertos acabassem a tempo de um jantar tardio ou de uma ceia, ao invés de poucas horas antes do pequeno-almoço.