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Rock in Rio: não é como acaba, é como começa

Bruce Springsteen elevou ontem a parada a um nível tal que não é difícil acreditar que agora, no festival da Bela Vista, será sempre a descer

Vão todos dizer o mesmo: Bruce Springsteen é uma força da natureza. É a mais pura das verdades. O primeiro dia da edição de 2016 do Rock in Rio já era dele e não deixou de sê-lo ao cabo de 2 horas e 45 minutos de concerto. Um minuto depois das 2 e meia da madrugada, quando o norte-americano de 66 anos saiu de palco depois de um número acústico ("This Hard Land"), a sensação de que se assistira a um concerto de fina estampa (e raríssima pujança) é inevitável. Bendita a hora em que o nosso tempo se cruzou com o de Bruce Frederick Joseph Springsteen.

Mas o concerto estratosférico de Springsteen e da sua E Street Band é também um problema para o resto do evento: e agora, quão aceitável será a distância dos restantes cabecilhas para este galáctico "despachado" logo ao primeiro dia?

Recuemos no tempo. Primeira edição em Lisboa, ano da graça de 2004: Paul McCartney, Foo Fighters, Metallica, Britney Spears, Sting. Segunda edição, 2006: Shakira, Guns N' Roses, Roger Waters, Red Hot Chili Peppers, Sting. Terceira, 2008: Amy Winehouse, Bon Jovi, Rod Stewart, Metallica, Linkin Park. Quarta, 2010: Shakira, Elton John, Muse, Miley Cyrus, Rammstein. Rock in Rio Lisboa V, 2012: Metallica, Linkin Park, Lenny Kravitz, Stevie Wonder, Bruce Springsteen. Sexta, 2014: Robbie Williams, Rolling Stones, Linkin Park, Arcade Fire, Justin Timberlake. Centramo-nos, atente-se, apenas em cabeças de cartaz.

Gostos à parte, a diferença sente-se. Amanhã será dia de Queen e Adam Lambert fecharem as hostilidades - ou dois elementos importantes dos Queen (que eram quatro) mais um vocalista convidado na terceira vida da banda britânica (Freddie Mercury será fatalmente a bitola). Para a semana, na sexta-feira, os Hollywood Vampires, simpática banda de versões com dois roqueiros e um ator de primeira água que gosta de rockar, partilharão a condição de cabeça de cartaz com os Korn, sobreviventes de um nu metal que já lá vai. Maroon 5, nome cimeiro da pop (mas que há menos de um ano passou pela capital), encabeça o penúltimo dia. Avicii, ponta de lança de uma "electronic dance music" em curva descendente, vai lançar os últimos foguetes. Nada, em teoria, contra estes nomes: mas já olhámos bem para os cardápios das edições passadas?

Pode este cartaz aparentemente mais fraco se dever a uma sequência de azares (os U2, que poderiam ser os Rolling Stones deste ano, trocaram as voltas à sua digressão; os Guns N' Roses só mais adiante virão à Europa)? Pode. Mas também houve concorrência atenta e a jogar bem. Os AC/DC já vieram. Adele, Iron Maiden, Justin Bieber e Santana ainda virão. Não é difícil supor que alguns deles - senão todos - assentariam como uma luva na Bela Vista. Não para fazer esquecer Bruce Springsteen, mas para acabar bem o que o "Boss" começou.