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Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Todos os músicos têm um preço?

Noel Gallahger pede soma milionária para aceitar uma eventual reunião dos Oasis. Mas mesmo num tempo de muitas reuniões, há ainda grupos que não parecem destinados a regressar. Nem mesmo com promessas de fortunas

Vinte milhões de libras... Ou seja, 26 milhões de euros... É a soma que Noel Gallagher diz que exige para, por um dia apenas, e num concerto único, aceitar fazer uma reunião dos Oasis. As declarações, reveladas pelo Daily Star, juntavam ainda a confirmação de que, nos últimos sete anos, os dois irmãos (Noel e Liam) não voltaram a reatar sequer um relacionamento familiar, e acrescentava, como observação, que ninguém tinha ainda proposto semelhante soma para tentar sugerir um regresso da banda que fez história, sobretudo na segunda metade dos anos 90 e primeiros anos após a viragem do século... Pelo que, numa altura em que o Festival de Cannes assinala a estreia de “Supersonic”, um documentário de Mat Whitecross sobre os Oasis, que faz com que a banda volte a estar na ordem do dia, a hipótese fica, mesmo assim a uma soma milionária de distância.

Mas na música pop, entre bandas que se desagregaram, há muito que foi compreendida e assimilada aquela máxima que deu título ao filme que, nos anos 80, devolveu Sean Connery ao papel de James Bond, porém fora da filmografia oficial do agente 007: “nunca digas nunca”...

E basta viajar no tempo para ler ou entrevistas com músicos zangados depois dos divórcios (das bandas, entenda-se) ou reencontrar listagens do género “grupos que nunca se reunirão” para notar que até mesmo entre os casos outrora dados como impossíveis, o verbo “reunir” muitas vezes volta a ser conjugado.

Quem achava que a formação original dos Velvet Underground nunca se reuniria começou a acreditar em possibilidades quando, em 1990, John Cale e Lou Reed se juntaram para, em “Songs For Drella”, celebrar a memória de Andy Warhol. E na verdade, pouco depois, os Velvet Underground estavam mesmo na estrada, desse reencontro tendo nascido um magnífico registo ao vivo que nos fazia notar como os anos lhes tinham dado outro calo como músicos de palco.

E, como eles, entre os outrora zangados ou meramente separados, muitos fizeram as pazes e deram novo “sim”. Ninguém imaginaria, em finais dos anos 80, ver novamente juntos os Culture Club. Ou os Bauhaus, que tão precoce separação tinham vivido após a edição do álbum “Burning From The Inside”, na verdade já criado sob tenso ambiente interno entre os músicos. E seguiram-se as reuniões, umas atrás das outras... Police, Blondie... Os Sex Pistols, com uma digressão a que chamaram “Filthy Lucre Tour”... Entre nós juntaram-se os Táxi e, por pouco, falhou o reencontro dos Heróis do Mar. Até os Pixies, que tinham arrumado as botas depois de “Trompe Le Monde”, voltaram a pisar os pacos.

Mesmo assim, havia aqueles que não pareciam dados à tendência dos reencontros. Entre eles eram dados como casos impossíveis os Guns’N’Roses, que acabaram contudo por se juntar. Até instituições maiores como os Led Zeppelin ou Pink Floyd viram os seus antigos elementos aceitar reunir-se, nem que por uma ocasião especial, em tempo de homenagens ou grandes causas...

Muitos foram também os que, após digressões de reunião, ganharam o gosto (e os dólares) ao ponto de gravar novos discos. O que, até ver, e salvo os casos dos Go Betweens, dos Blur (e talvez poucos mais), não foi assim grande ideia. Estas nostalgias não têm trazido grande criatividade a reboque, é verdade...

E agora, num momento em que os Monkees se preparam para voltar e Tanya Donelly pondera uma reunião das Belly, a soma milionária lançada por Noel Gallagher fica no ar. E é valor que fará retinir mais casos resistentes à espera do reencontro (mesmo sendo essa uma soma levantada por um músico e não uma oferta , entenda-se)... Duvido, contudo, que seja argumento para desafiar a “trindade” superior das bandas que, mais do que todas as outras, dificilmente algum dia voltarão a estar juntas. The Smiths, Abba e Talking Heads têm, de certeza certezinha, um ponto final definitivo há muito dado pelos seus elementos. Ganhariam fortunas se voltassem a pisar um palco... Mas não parece que, nesses casos, esse venha a ser argumento. Nem todos têm um preço.

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