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A propósito de Bruce Springsteen, os católicos tomaram conta do rock?

Respondendo desde já à pergunta: não exatamente. Mas vale a pena ler a crónica de José Tolentino Mendonça, na última Revista do Expresso, onde é exímio a descrever a geografia teológica de Springsteen - não por acaso traçada através de alguns dos seus melhores álbuns, isto é, “The River”, “Nebraska” ou “Tunnel of Love”.

E o que diz Tolentino? Depois de citar artigos sobre Bruce Springsteen nas mais consideradas publicações católicas, como “Theology Today Journal” ou “Civiltà Cattolica”, diz que “entalados no quotidiano urbano mais cru ou perdidos nos bosques, entre a infâmia, o sonho e a raiva, os protagonistas das canções de Bruce ganem a fome do resgate, a espera por aquele que os poderá livrar do mal. Ao mesmo tempo que declama as suas (as nossas) minúsculas histórias de amor como monumentais epopeias de graça e redenção.” Chega? É o que há. Mas sobra.

Explícita ou tacitamente as referências a Deus são omnipresentes na lírica springsteeniana. Mas não só. Era muito fácil arrolar uma infinidade de acontecimentos ou tão só fait divers que ao longo da sua carreira ilustram essas “referências religiosas de origem como gramática para exprimir isto que somos sobre a terra”. Como quando, num concerto lotado no Madison Square Garden de Nova Iorque, dançou no palco com Adele Springsteen, para celebrar o Dia da Mãe. A mãe de Bruce Springsteen, 90 anos, e a sua irmã são aliás presença assídua nos concertos do Boss e não raras vezes sobem ao palco para dançar canções como “Ramrod” ou “Dancing in the Dark” (ambos deverão fazer parte do alinhamento que irá ser apresentado no Rock in Rio). É verdade, Bruce Springsteen deixou de ir à missa quando tinha 13 anos, logo depois de ter recebido o crisma. Mas, de seguida, começou a ler Flannery O’Connor.

Se para Springsteen o rock pode ser uma cruz, que dizer dos U2, onde se descobre essa mesma “gramática” em toda a sua discografia? Que digo?, em toda e qualquer canção. Para os menos avisados, não é só na letra de “Sunday Bloody Sunday”, onde Bono procurou fundir a guerra entre católicos e protestantes com a celebração da Páscoa. É mesmo em cada verso de cada canção que resulta, quase sem excepção, de uma busca da redenção facilmente reconhecível mesmo por quem não tenha feito a primeira comunhão. Bono é aliás uma tentativa de personificação das virtudes teologais, aquelas que “animam o agir moral do cristão”: fé, esperança e caridade. A esse propósito, nada ultrapassa o artigo de Joshua Rothman, publicado em setembro de 2014 na “The New Yorker”, “A Igreja dos U2”. O mapa dessa geografia volta a surgir ali, impecável, com todas as curvas de nível possíveis e imaginárias a desenhar o seu relevo.

Mas não considere o caro leitor que isto é coisa que só dá a artistas capazes de encher estádios ou que foram entronizados reis do mainstream. Já reparou na quantidade de citações do Antigo Testamento presentes na obra de Nick Cave? Bem, isso era no princípio da sua carreira. Cave ia à missa, duas vezes por semana, até aos 12 anos. Fiel da Igreja Anglicana, chegou a ser menino do coro. Mas deixou o Deus déspota do Velho Testamento para, mais tarde, se reconciliar com a cristandade. Mais precisamente, em 1997, com o álbum “The Boatman’s Call”. Primeiro verso da primeira canção: “eu não acredito num Deus intervencionista”.

E prestou atenção às encenações grandiosas dos Arcade Fire? Aquela espécie de “big music”, como havia nos Waterboys dos primeiros tempos? Pois é. Também está lá. Mas serão todos assim. Nem por isso. Graças a Deus, a música popular está cheia de ateus, de cultores de outras religiões – oh, o free jazz e o islamismo – e de infinitas espiritualidades. Mas Springsteen no Rock in Rio já prometeu mais de 30 canções, a ter em conta o concerto de Barcelona no passado dia 14. Sim, sempre em busca da redenção até ao “Twist and Shout” final e sem deixar de passar por “Purple Rain” de Prince. Quem? Pois, esse mesmo que no século XXI assumiu ser Testemunha de Jeová.