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Brasil, ou a “fratura exposta de um sonho”

Numerosos músicos brasileiros subscreveram uma carta aberta ao Governo de Michel Temer, sobre a recente extinção do Ministério da Cultura. Aqui sugerimos algumas das mais belas pérolas em tons de verde e amarelo dos últimos meses

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

“Era uma vez um país chamado Brasil” – é este o título de um artigo do espanhol El País que vi hoje, mal acordei, e enviei, com a falta de tempo costumeira mas interesse genuíno, para aquilo a que carinhosamente chamo “cemitério de links”, ou seja, aquela “gaveta” do Facebook onde guardamos textos que gostaríamos de ler, um dia, mais tarde. “Mais tarde” é expressão que não se coaduna com os tempos vividos no Brasil, presentemente. Depois do afastamento da Presidente Dilma Rousseff e da tomada de posse de Michel Temer, as mudanças e a contestação têm em si a urgência do hoje, e a cultura – tão vital e dinâmica daquele lado do Atlântico – não tem escapado à turbulência.

Depois da extinção, por parte do Governo de Michel Temer, do Ministério da Cultura, área que agora ficará vinculada à educação, vários artistas brasileiros subscreveram uma carta aberta, partilhada pela Associação Procure Saber – formada por músicos como Caetano Veloso, Chico Buarque ou Gilberto Gil – e pelo Grupo de Ação Parlamentar Pró-Música, no qual militam Fernanda Abreu ou Ivan Lins.

Nesta missiva, publicada pelo jornal Globo, os músicos sublinham que a criação do primeiro Ministério da Cultura, em março de 1985, ou seja, logo após o fim da ditadura militar, se conta “entre as grandes conquistas da identidade democrática brasileira”. Recordam a sua extinção pelo Presidente Collor de Mello, em 1990, o seu regresso em 1992, pela mão de Itamar Franco, e a sua ampliação e reorganização a partir de 1999, durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso.

Acima de tudo, sublinham a importância da cultura na forma como o país respira além-fronteiras – mesmo em 1985, escrevem, “o nome do Brasil já havia sido projetado internacionalmente através do talento de Oscar Niemeyer, (…) da música de Ary Barroso, Dorival Caymmi, Carmen Miranda, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, do cinema de Glauber Rocha e Cacá Diegues. A criação do Ministério da Cultura» reconhecia assim, acreditam, «o extraordinário papel que as artes brasileiras desempenharam na divulgação de um país jovem, dinâmico, acolhedor e criativo».

Em 2016, estes vultos lançam um repto claro ao novo Governo: “Nós, que fazemos da nossa alma a alma desse país, desejamos que o Brasil saiba redimensionar [a] sua imensa capacidade de gerar recursos para a educação, a saúde, a segurança e todos os projetos sociais e económicos necessários ao crescimento da nação sem que se sacrifique um dos seus maiores patrimónios: a nossa cultura”.

***
No que toca à música que o Brasil produz e partilha com o resto do mundo, os últimos tempos têm sido de uma riqueza assinalável. Basta recuar uns meses e maravilhar-nos com as canções mimosas de Cícero, o hip-hop com todos de Criolo e o rock psicadélico dos Boogarins (que estarão no Rock in Rio Lisboa, atuando no Palco Vodafone), para já não falar dos sobejamente conhecidos (e radicados em Portugal) Marcelo Camelo e Mallu Magalhães, ou do também ex-Los Hermanos Rodrigo Amarante, que ainda a galope do mágico Cavalo, o seu primeiro disco a solo, regressa a Portugal no final de junho para cinco aguardados concertos.

A nossa sugestão de hoje desagua, contudo, nos Baleia. Banda de seis músicos, com “sede” no Rio de Janeiro, lançaram este ano, digitalmente, o segundo disco, cumprindo e ampliando todas as promessas da já muito curiosa estreia, em 2013, com Quebra Azul. Há quem compare a música dos irmãos Sofia e Gabriel Vaz a certos ambientes explorados pelos Radiohead, e é verdade que os cariocas chegaram a fazer uma intrigante versão de “Little by Little”, arraçada de “Noite de Temporal”, de Dorival Caymmi, assim sugerindo que o seu ADN passa por esse cruzamento de MPB e rock, jazz e folk.

Se precisarem de mais referências “gringas”, pensem que Beirut não desdenharia gravar uma canção como «Volta», ou que «Estrangeiro» comporta alguma da euforia dos Arcade Fire. Mas será injusto reduzi-los a um punhado de comparações, quando Atlas, disponível para escuta no site da banda e nos principais serviços de streaming, é um dos discos mais frescos e personalizados dos últimos meses. Cantado neste elegante português:

Um longo entardecer, vigília de nós dois
Vem sitiando esse lugar, desordem de um céu
Crepuscular em nós, desgovernando as luzes
O vento te uivou e a janela abriu

Sobrou nada a dizer
Então, sorrimos estranho
Nos dentes, algo aterrador
Fratura exposta de um sonho

E eu vi
A cidade acender
Brota celestial no chão
Te dizer adeus é o maior amor que eu sei


(De "Véspera", do álbum Atlas)