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E tu, o que é que andas a ouvir? (versão primavera a pedir sol)

Mais uma leva de airosas cantigas à espera de uma playlist (ou de um bloco de notas) para não caírem em esquecimento. Posso responder por escrito?

É uma das perguntas mais complicadas de se atirar, à queima roupa, a quem faz disto o seu ganha pão. Corrijo: antecede uma das respostas mais dolorosas da função. Não deveria ser assim. Qualquer atento escriba dos assuntos das cantigas deveria ser capaz de debitar duas listas telefónicas de novidades absolutamente imperdíveis em vez de engasgar e pedir um momento para pensar (aquele momento em que um grilo falante nos segreda um “pára lá de ouvir velharias”).

Na verdade, passe o exagero, tudo isso se torna possível se for socialmente admissível devolvermos um “Posso responder por escrito?”. Falo por mim: por cada “e tu, o que é que andas a ouvir?” não visto a roupa do crítico informado por decreto, mas sim o de gajo de não consegue viver sem música. E que para lutar contra o esquecimento na era do eclipse do físico (não há CDs nas prateleiras para auxiliar a memória recente) vai tomando umas notas. “Ainda bem que perguntam, estão a ajudar a minha própria organização. Sim, posso responder por escrito. É como me dá mais jeito”. Então, cá vai disto.

Rock psicadélico funcional servido por duas damas de Boston: Ellen Kempner e Sadie Dupuis (de Speedy Ortiz). O resto do álbum é mais afolkalhado.

A voz da Beta Band em regime ultra-pop, sem complicações ou fintas inesperadas.

Nostalgia do rock AM dos anos 70 via trio de Mineápolis. É o tipo de som crepuscular que vai valendo vénia a Kurt Vile ou Phosphorescent. Também evoca uns MGMT que quisessem ser domesticados.

O saxofone no final acorda as moscas adormecidas da execrável chill-wave, mas esta banda australiana consegue - graças a um riff de guitarra lo-fi - levar-nos até aos 4 minutos. Podia ser Lower Dens.

Mesmo que não o soubéssemos, os ecos do som C86 que aqui se ouvem levam-nos para Glasgow, terra natal deste trio (e, não por acaso, os muito saudosos Veronica Falls também vêm à memória), mas a melhor definição para Tuff Love já a lemos noutro lado: grunge pop.

Terceiro álbum de banda garage/psych/surf fundada em Dallas, Texas, o mesmo estado que nos deu os Black Angels. E por falar em Black Angels...

Nome de guerra da holandesa Annelotte de Graaf que gravou um álbum em Nova Iorque, contando com membros dos Quilt e Real Estate como banda de suporte. É tudo o que a frase anterior pode indiciar: indie rock jangly e orelhudo a pedir um céu azul e dedos nus em relva fresca.

A cidade do Porto é um dos sítios preferidos deste norte-americano de 28 anos - e só por isso já se torna difícil não gostar dele. Felizmente, a música faz jus ao bom gosto na geografia: "Dorothy" é das mais luminosas canções do muito apreciável Singing Saw, acabado de lançar. Dylan na segunda metade dos anos 60 é uma pista.