Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Crónica para mais uma morte anunciada

Após 20 anos de vida ativa no velho coração boémio de Manhattan, a Other Music é mais uma importante loja de discos a fechar. Sobrevivem ali perto as lojas de usados. Mas há novos modelos em cena, a mostrar que, mesmo sendo um nicho, os suportes físicos ainda podem ser comprados sem exigir encomenda online.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Há menos de um mês, com um amigo em primeira viagem a Nova Iorque, recomendei-lhe não só uma passagem pela livraria The Strand (que resiste mesmo com as outras todas a encolher as suas superfícies) e pela Other Music, uma loja de discos na Rua 4, no quarteirão que faz esquina com a Broadway e que, em tempos idos, era atalho para das estações de metro ali mais perto chegar ao mítico CBGB, o bar onde o punk nasceu em meados dos anos 70 e cujo espaço acolhe hoje uma loja de roupa. A recomendação foi a tempo já que, esta semana, a Other Music anunciou que vai deixar de ocupar aquele lugar. A 25 de junho, um sábado, quando as portas fecharem ao fim do dia, não haverá quem esteja escalado para as voltar a abrir na segunda-feira de manhã. Uma das lojas de maior referência numa das capitais mundiais da música desaparece do mapa, ao cabo de 20 anos.

Não houve vez que passasse pela cidade que não visitasse a loja. O espaço não era nem demasiado pequeno nem demasiado grande, tendo dado novamente espaço ao vinil bem antes da tendência ter virado consumo mais evidente. E a seleção, sobretudo focada nas correntes alternativas, do rock e da pop às electrónicas, era atenta, variada, invariavelmente capaz de responder ao que ia ali procurar, sendo certo que acaba sempre por ali descobrir outras edições que não contava levar para casa. Dos Magnetic Fields a discos de Panda Bear (que ali chegou a trabalhar) aos primeiros EPs de James Blake, alguma da música que tenho em casa, vinda de Nova Iorque, saiu dos escaparates da Other Music.

Um staff informado, uns com look mais hipster, outros procurando na não imagem ter a sua imagem, uma verdadeira montra de flyers à entrada, que nos davam conta de quem tocava ao vivo e onde nessa semana, e paredes forradas a edições para abrir o apetite, faziam da Other Music uma paragem agradável a qualquer melómano com gostos naquelas direções estéticas.

Lembro-me de um tempo – e tenho de recuar apenas uns dez anos – em que aquela era uma entre as muitas paragens que fazia na minha romaria entre as lojas de discos quando passava pela cidade. Havia ainda as grandes lojas, das duas megastores da Virgin (uma em Times Square e outra em Union Square) e a da Tower Records, que curiosamente morava do outro lado da rua, mesmo em frente à Other Music. Mas a Tower fechou a sua rede de 89 lojas americanas em 2006 e a Virgin encerrou ali a sua atividade em 2009. A Other Music passava então a ser uma das maiores entre as pequenas, mas agora deixa um vazio num mapa que, em Greenwich Village – outrora o coração boémio e musical de Manhattan – só não faz silêncio absoluto porque resistem ainda pequenas lojas como a Rebel Rebel, a Bleeker Street Records ou a Generation Records, mas todas elas mais focadas em edições antigas e venda de títulos usados e de colecionador.

A Other Music era uma loja diferente. Estava atenta ao presente e, quando Nova Iorque voltou a ser o centro das atenções indie, com o despertar de bandas locais como os Yeah Yeah Yeahs, Interpol ou, mais tarde, Vampire Weekend, era ali que os seus discos chegavam em primeiro lugar, através da loja a sua música tendo conhecido um importante veículo de divulgação. Mas muita coisa mudou. E, como recordou um dos fundadores da Other Music num artigo recente do New York Times, ao passo que as vendas de discos caíram a pique (sobretudo o CD, com o vinil a fazer ali agora 60% da faturação) a renda subiu e é hoje o dobro daquilo que pagavam quando ali chegaram. O negócio não chegou ao alerta “vermelho”, mas antes que o fizesse, resolveram fechar, mantendo contudo a laborar a editora que fundaram há poucos anos.

A loja, como o referia esse mesmo artigo, era uma “meca” antes da Internet. Confirmo que, de facto, assim era. E, como tantos outros, também eu ali cheguei com as notas de dólar contadas para, com os dedos a correr entre os discos, escolher o que não encontrava perto de casa.

Os consumos de música estão a mudar. O streaming dita hoje o modelo e a compra do suporte físico chega depois, como complemento, muitas vezes em encomenda online. O ressurgimento do vinil, mesmo assim (e porque não deixa de ser mais do que um nicho), não foi suficiente para manter viva uma loja que desempenhou um papel vivo na história musical de uma cidade. O artigo do New York Times nota ainda que uma loja recentemente montada pela Rough Trade (em Brooklyn, para onde se mudou a vibração da cena musical indie da cidade), que junta à venda de discos em vinil e em CD um espaço de café, um outro de acessos à internet e também um palco para atuações ao vivo, vai de vento em popa... Há por isso que, em vez de limitar o discurso ao carpir as perdas, pensar como adaptar o negócio da venda de música em suportes físicos a uma idade em que o digital já cantou a vitória. Porque é garantida e já não vai mudar... É claro que dói o fim de uma casa como a Other Music. Mas, como cantava Bob Dylan – e numa altura em que tinha casa ali mesmo, no Greewich Village – os tempos estão a mudar. Há que mudar com eles. Antes ser um pouco diferente do que acabar ausente, certo?

PS. Há uns cinco anos, encontrei um dos primeiros discos de James Blake em plena Other Music. E registei o momento.

  • O meu serão na casa de Prince

    Opinião

    Em finais do outono de 1996 estive em Paisley Park para assistir ao lançamento do álbum Emancipation, numa daquelas raras oportunidades em que Prince abriu as portas de casa a olhares curiosos

  • Que poder tem um músico?

    Opinião

    Ao levantar a sua voz contra uma lei na Carolina do Norte que abria terreno à discriminação pela orientação sexual ou identidade de género, Bruce Springsteen foi, dos muitos que protestaram, aquele que mais se fez escutar

  • Como nasce um “standard”?

    Opinião

    Ao ouvir Michael Stipe a interpretar “The Man Who Sold The World” senti que aquela canção de 1970, que os Nirvana já tinham revsitado também brilhantemente, ganhava um novo estatuto.