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O marketing dos Radiohead é uma fraude

Por estes dias, a internet está pejada de ensaios que louvam o talento do marketing dos Radiohead. Os acontecimentos associados ao lançamento do seu novo álbum, no passado domingo, voltaram a entusiasmar os comentadores. Ainda assim, sinto-me assaltado por dúvidas. Onde está o génio ao dizer-se que não se quer uma coisa que afinal se quer?

Não é de ontem nem de hoje. Faz, decididamente, parte da atitude Radiohead desde há muitos anos. Os sinais são inúmeros e visíveis a olho nu: fazer uma manifestação contra o streaming e o Spotify por este não pagar devidamente aos autores e artistas e oferecer um álbum (“In Rainbows”, 2007) na internet. Apagar o site e as contas no facebook e twitter, “para desparecer da internet” (1 de maio), e surgirem canções nos dias seguintes nas plataformas de streaming (Spotify incluído). Jurar que não se tem marketing e ter a estratégia mais proveitosa nas mais infames redes sociais. Dizer-se contra o capitalismo e ter mais de vinte empresas a explorar, a controlar e a gerir as receitas e os custos de cada disco ou de cada digressão. É, por fim, inventar que se é uma coisa e ser exatamente o contrário.

Bem-vindos ao admirável mundo dos Radiohead. Onde afinal tudo tem uma explicação. Na idade do excesso de informação, ninguém como eles sabe criar escassez. Basta atentar em alguns dos exemplos atrás citados. Vale a pena bombardear os media durante semanas a fio com informação sobre um disco a ser lançado ou é preferível atirá-lo para o mercado de surpresa? Vale a pena colocar todas as canções disponíveis no Spotify ou apenas os singles que servem para promover o álbum? Vale a pena ter a fotografia da banda espalhado pelos quatro cantos do mundo ou fazer um vídeo com um misterioso, infantil e onírico passarinho a cantar? Vale a pena esmagar em termos de informação ou deixar que sejam os outros a fazer as despesas e a criar discussões e debates em torno da ordem do alinhamento do disco, da data da conceção das canções ou dos melhores arranjos deste ou daquele tema?

Os Radiohead sabem, muito claramente, a resposta. Mas, caro artista em ascensão, não tente fazer isto em casa. Estas travessuras só são permitidas a quem já tem um histórico. Mais concretamente, a quem conseguiu um lugar ao sol no tempo da outra senhora, quando as editoras tinham outro poder e a idade de ouro da indústria discográfica ainda não tinha terminado. Isto é, para quem apareceu antes do ano da graça de 2000. Ou seja, só serve para quem possui uma notoriedade capaz de disponibilizar, de imediato, o espaço público para tão seminais debates, para tantas questões fundamentais. E isso já sabemos, os Radiohead têm. E sabem. Curiosamente, muito graças a “Creep”, o single que os divulgou em todo o mundo mas que desde há alguns anos eles renegam e se recusam a tocar. Soa familiar?

Claro que sim. Não é morder na mão que dá de comer. Nem sequer atirar a pedra e esconder a mão. Thom Yorke é especialista em atirar a pedra, esconder a mão e lucrar com os resultados da pedrada. Mas não veja nisto, caro leitor, uma crítica e recensão ao novo álbum dos Radiohead, do qual ainda escutei apenas dois temas. Para isso leia, por favor, as primeiras impressões do Mário Rui Vieira, aqui, ou um artigo mais aprofundado na Revista do Expresso ou na próxima edição mensal da BLITZ. Esta não é uma análise ao álbum “A Moon Shaped Pool”. Muito menos uma previsão do concerto que a banda irá fazer no festival NOS Alive.

Trata-se apenas de constatar o óbvio. Um plano de promoção que tem vergonha de o ser. Uma estratégia de marketing fraudulenta. Uma mentira que serve para inventar um mundo que, afinal, já não existe.