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Resguardar o bom nome: de Prince a Variações

No Minnesotta, estado natal de Prince, prepara-se uma lei que pretende proteger o nome e a obra dos artistas após a sua morte, impedindo o uso abusivo da sua imagem, por exemplo. Vai chamar-se PRINCE. A lei...

Personal Rights In Names Can Endure. P.R.I.N.C.E.. É este o nome da lei que os legisladores do estado do Minnesotta, nos Estados Unidos, querem fazer aprovar para proteger o legado de um dos seus mais pródigos filhos, recentemente desaparecido, como bem sabe todo o planeta (e decerto mais algumas galáxias por esse universo fora). Já existem leis semelhantes noutros estados, como em Washington, onde a morte de Jimi Hendrix inspirou um cuidado idêntico.

A América entende bem a necessidade de preservar os seus maiores monumentos que não são necessariamente feitos de pedra e aço, antes de uma mais elusiva matéria que ao longo de décadas tem servido para moldar lendas e mitos, de Charlie Chaplin e Marlon Brando aos já citados Hendrix, Prince, Jim Morrison, Michael Jackson ou Kurt Cobain. Figuras da esfera pop, com profundo impacto cultural, que muito naturalmente alcançaram a imortalidade. Só que a imortalidade dá muito trabalho a manter, implica muita ginástica e, por vezes, a intervenção até dos legisladores. Quando a América intervém é porque percebe o valor que estes legados representam: afinal de contas, essa indústria de entretenimento é crucial para a manutenção do seu status quo global. As estrelas de cinema e da música vendem muito mais do que bilhetes para assistir a filmes, discos e t-shirts - vendem uma forma de vida ao resto do planeta, vendem uma língua, uma visão do mundo, uma tecnologia. Vendem o "american way of life". E isso significa música e filmes, mas também roupa e carros e produtos alimentares, e indústria e um modelo económico. Por isso mesmo, proteger Prince e a sua obra é também proteger a América, tanto quanto proteger o interior do mítico cofre de Paisley Park.

Há-de chegar um momento em que idêntico pensamento ocorra aos legisladores portugueses que terão que pensar no passado quando sentirem ser urgente proteger o futuro. António Variações é um caso notório: o seu espólio físico foi desbaratado e a família não tem facilitado a vida a quem pretenda abordar-lhe a obra, num gesto de zelo que silencia bem mais do que preserva. A América entende a pop como património imaterial. E tal como há leis que impedem o dono de um qualquer monumento nacional (um palácio, uma igreja, um qualquer marco arquitectónico) de o desbaratar ou destruir para construir um condomínio ou uma fábrica ou um campo de golfe, também se deveria pensar no que vai acontecer a certos espólios de artistas mais desamparados pela falta de visão de descendentes e herdeiros, a coleções privadas de arte, a importantes bibliotecas ou acervos discográficos. A chave do futuro está muitas vezes na defesa do passado. Em muitas coisas há boas lições para aprender com os americanos porque de pop percebem eles, certamente. Viva Prince e a lei que agora recebe o seu nome. E viva Variações também, pois claro.