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Selma Uamusse

Selma Uamusse trabalha duro com (muita) alegria

A cantora que integrou os Wraygunn e acompanha Rodrigo Leão vai lançar-se a solo. E dela só esperamos coisas boas

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Depois de uns dias de férias, voltei no final da passada semana a Lisboa, e na sexta à noite tentei amenizar a transição entre a doce preguiça balnear e o bulício da cidade com um concerto ao preço da chuva, bem pertinho de minha casa. Por cinco euros – e não será despiciendo sublinhar a importância do preço dos bilhetes, na capacidade de atrair público a eventos pouco publicitados – ganhei entrada no mundo de Selma Uamusse, a cantora «moçambicana e portuguesa» (palavras da própria) que nos ofereceu um serão de luxo, no Auditório Carlos Paredes.

A par de «especial» e «único», o atributo «mágico» será daqueles que com menos parcimónia usamos, quando queremos elogiar a obra ou o caráter de alguém. A Selma Uamusse, porém, a magia assenta como uma luva, nunca como uma hipérbole. Em palco, a cantora que durante muitos anos nos habituamos a ver, ao lado de Raquel Ralha, como uma das vozes femininas dos Wraygunn, é uma seta de paixão e energia. Acompanhada por três músicos, um dos quais viera propositadamente de Antuérpia, na Bélgica, para tocar instrumentos tão cativantes como a timbila, a artista que, nos últimos tempos, tem também cantado com Rodrigo Leão ou com o projeto Medeiros/Lucas, no fabuloso tema «Corpo Vazio», começou por pedir desculpa por contrariar o cartaz exposto atrás de si. Não era jazz que iria cantar, ainda que o tenha estudado no Hot Club. Também não foi exatamente gospel – outra das linguagens em que é fluente – que ali recebemos, nem o rock que durante anos a fio comungou com Paulo Furtado.

Numa das primeiras apresentações do que virá a ser o seu primeiro disco a solo, Selma Uamusse explorou as suas raízes moçambicanas, partilhando com o público ali reunido que, tendo vindo para Portugal em criança, nunca deixou de se sentir africana, mas que quando regressa à pátria a que chama mãe é vista como «uma tuga». Convidada também do recente disco de Samuel Úria, Carga de Ombro, a nossa anfitriã é porém capaz de transmitir todas estas experiências com a humildade de quem todas as manhãs «dá graças pelo que tem».

Dançando inicialmente de saltos altos, pedindo pouco mais tarde para tirar os sapatos, descendo ao público para nele tocar e nos seus olhos fitar os seus, Selma Uamusse é intensa ao ponto de levar alguns espectadores às lágrimas, mas a sua mensagem é de luz e amor. Numa das canções, fala de água, referindo-se à palavra numa das línguas de Moçambique, e é como se, belissimamente secundada por Gonçalo Santos (bateria, djembê), Augusto Macedo (baixo, teclados, samplers) e Nataniel Neto (responsável por uma profusão de instrumentos tradicionais: dundun, tama, timbila, mbira, kalimba, udon), ela fosse um canal tão líquido como aquele bem essencial, transportando as emoções do palco para a plateia e vice-versa.

Em tempos não muito distantes, Selma Uamusse deu concertos exclusivamente compostos por temas de Nina Simone, uma das suas grandes referências. A lenda de «Young, Gifted and Black» continua presente nesta sua nova aventura, quer no timbre quente e versátil com que encanta a pequena plateia, quer nos idiomas musicais explorados, mas a fazer fé neste concerto, acreditamos que, na aguardada estreia a solo, prevista para breve, Selma irá percorrer um caminho personalizado, seguindo pistas da música moçambicana pouco conhecidas por cá, sempre com a emoção à flor da pele.

A certa altura, com a simplicidade «de um coração aberto», como ouvimos a uma amiga, apresentou uma canção como sendo sobre «trabalhar duro com alegria», mote seguido por si e pela banda que tem consigo. Basta vê-la e ouvi-la para perceber que esta é a mais pura das verdades. A festa intimista acabou com amigos dançando em palco e a habitual timidez do público português, preso às cadeiras mas de olhos encandeados. Será um prazer poder acompanhar a ascensão desta estrela nos próximos meses.