Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

A revolta dos parolos

O que é que Capitão Fausto e Samuel Úria têm a ver com o passado da música portuguesa? Nada e tudo

Na minha adolescência, no arranque dos anos 90, a “música portuguesa” (cantada em português) era um caso complicado (apesar de Rui Veloso e os GNR terem então vendido discos às paletes). Duas expressões balizam a minha apreciação da doutrina que entendia como vigente nesses tempos (nada de muito científico, baseava-se em conversas com amigos e pessoas ligeiramente mais velhas e, presumivelmente, “entendidas”): “É português? Não gosto” (maravilhosamente recuperada pela Stealing Orchestra na década seguinte para um álbum gratuito) e “para português não está mal”.

São as duas horríveis. Imagine que se diz isto sobre alguém que gosta de nós: é de cortar os pulsos. A primeira exclui qualquer possibilidade de algo de valoroso provir do que se faz aqui na oficina, é menos um “meat is murder” do que uma intolerância psicológica: “sim senhor, este português é bem-apessoado, bem-falante e canta bem, mas a sua música será sempre o equivalente à excrementícia”. A segunda é ainda pior porque é condescendente. Preferimos alguém que nos diga “vai-te embora, és feio” ou “para feio até passas”?

Em conversa com Marta Ren, que é quatro anos mais nova do que eu mas “nasceu” bem jovem para a música (formou os Sloppy Joe, que cantavam em inglês, aos 14 anos), reencontrei os fantasminhas da minha, digamos, idade de crescimento. Diz ela em entrevista que pode ler na presente edição da BLITZ: “Para mim, cantar em Português não é natural. Tem tudo a ver com a minha geração. Eu tenho 35 anos e aos meus 14 ou 15 anos quem cantava em Português era [considerado] parolo!”. Bingo. Parolo.

Do que me lembro das conversas no pátio da escola, Marta terá toda a razão. Em 1989, no meu segundo ano do Ciclo Preparatório, o professor Ramusga, de Educação Musical, perguntou aos alunos – um a um – qual era a banda de predileção dos mesmos e porquê. O primeiro, alguém começado por A, respondeu “Pink Floyd” (à época, uma banda apreciada por ainda jovens pais ou irmãos mais velhos) e até ao J deve ter sido tudo corrido a Pink Floyd, por efeito de osmose. Porquê? Porque se dizia que eram os que tocavam mais alto. Eu, como nunca tinha ouvido Pink Floyd na vida, atirei uma banda que conhecia (apenas um par de músicas, provavelmente) e compreendia: Sétima Legião. Erro crasso. Fui o parolo da turma. Ainda mais do que o Jorge Miguel, que respondeu “Europe”.

A relação dessa geração com a música portuguesa é a de quem começou, de forma ingénua, a encará-la como um estilo per se. Há folk, há jazz, há rock e há música portuguesa. Gosto de rock, não gosto de jazz, gosto de folk. É português? Não gosto. Na barraca do outro lado da rua vendiam-se slogans como “já se faz música portuguesa ao nível do melhor do que se faz lá fora”. O campeonato de provincianismo estava ao rubro.

Esta não foi, evidentemente, a última jornada da competição. Até ao final dos anos 90 – inclusivamente nas páginas do então jornal BLITZ – a discussão sobre “cantar ou não em português” foi acendida ocasionalmente, sobretudo depois do aparecimento do fenómeno Silence 4. Ótimos argumentos, argumentos sensatos, argumentos nazis, argumentos parolos – houve de tudo. Mas é a conversar que a gente se entende.

As coisas evoluíram (e não apenas pela qualidade evidente de alguns dos nossos queridos compatriotas: letristas, compositores, intérpretes), mas ainda hoje embirro com considerações do tipo “a música portuguesa está bem e recomenda-se”. Se por um lado parecem desejar valorizar o que nos é mais próximo e familiar (é uma questão de afinidade compreensível), por outro lado parece novamente a apologia pacóvia do nosso belo peixinho, que está ao nível do melhor que se pesca lá fora (e aí fiquemo-nos por Espanha). Tento sempre lembrar-me que acima da “música portuguesa” há “música”. E meter tudo no mesmo saco é a melhor homenagem que lhe fazemos.

Ao ouvir os recentes álbuns de Capitão Fausto e Samuel Úria, eu – um dos da geração parola – sou confrontado com música que ouviria, sem preconceito, sem “dar o desconto”. Aqui ou na Nova Zelândia. São, naturalmente, dois discos diferentes: os Capitão Fausto cantam exemplarmente o fim da juventude, não percebendo que este, afinal, ainda está longe. Fazem-no com tiradas contundentes, sound bytes que entram no ouvido e um rock que se quer aperaltar. Samuel Úria é alguém a tentar dar sentido a si mesmo e ao pequeno/grande mundo à sua volta. Recorre a um jogo lúdico de palavras, sem cair no vazio do efeito. Sabe tocar fundo sem facilitismos, conselhos de autoajuda ou contemplações anódinas. Ambos respiram universalidade. Essa universalidade, afinal, tão portuguesa que nem precisa que lhe ponham nome.