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Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

E os Radiohead puseram o mundo a escutar um pássaro

Uma campanha simples, mas bem montada, uma canção brilhante e uma presença da música nos serviços de streaming garantem à banda todos os argumentos para que o seu regresso à atividade após algum silêncio venha a ser um dos casos do ano

Esta semana, entre os novos episódios em volta da busca pela verdade nas causas da morte de Prince e a notícia de um novo festival que juntará em outubro seis nomes veteranos no mesmo espaço que acolhe o Coachella (no deserto, a 200 quilómetros de Los Angeles), o mundo da música parou para escutar um passarinho... Na verdade o frissom já vinha da véspera, com a revelação – rapidamente mediatizada – de que os Radiohead tinham feito absoluto silêncio nas suas plataformas de presença digital. O que quereria dizer esta retirada da Internet, perguntava então muita gente. Não era preciso ser visionário para imaginar que, depois do silêncio, vira o som. E, no dia seguinte, acordávamos com um passarinho a chilrear na conta de Instagram da banda... Um post como aquele, numa rotina diária, seria notícia, naturalmente. Mas depois da avalanche de observações e comentários sobre o silêncio da véspera, o passarinho cantou para todo o mundo que, aliviado de que os Radiohead não se tinham mudado para Marte, ali foi escutar as notas que chilreava.

Os passarinhos não são, vale a pena lembrar, figuras de todo alienígenas ao mundo da música. Ainda não havia instrumentos e já certamente os primeiros homens os escutavam e imitavam, ensaiando talvez ali as primeiras formas de canto. Mais tarde os compositores escutaram-nos como fonte de inspiração ou até objeto de estudo melódico, como o fez Messiaen que estabeleceu um catálogo de registos em função de observações de canto que fez escutando pássaros, mais tarde transformando essas anotações e frases musicais em obras para serem escutadas em discos ou numa sala de concerto. A música popular também há muito que canta sobre os pássaros. E do “Blackbird” dos Beatles ao “When Doves Cry” de Prince, passando pela “Gaivota” de Amália Rodrigues, a sua representação é vasta, variada e bem cantada. Porém, o passarinho dos Radiohead trouxe algo de diferente.

Em primeiro lugar mostrou como uma manobra de comunicação bem orquestrada pode fazer-se escutar usando como teaser o frágil e quase silencioso chilrear de um passarinho. E, horas depois, quando aqueles breves segundos revelaram todo um teledisco (que abre e fecha com pássaros) que nos deu a escutar “Burn The Witch” dos Radiohead, confirmou como um lançamento de uma nova canção pode ter impacte global dispensando os formatos clássicos de divulgação (rádio, televisão ou até mesmo o apoio de um site de grande dimensão). E assim, tal como aconteceu com Bowie quando em 2013 regressou do silêncio com “Where Are We Now?”, o reencontro dos Radiohead com todos nós fez-se num diálogo direto entre os espaços de comunicação dos próprios músicos e quem os quer escutar.

A canção, que reativa, embora sem pompa épica, o lado orquestral que os Radiohead tinham já explorado em finais dos anos 90, moderando a contribuição das electrónicas (sem contudo as apagar do mapa), deu-nos o seu melhor cartão de visita desde os dias em que “Kid A” e “Amnesiac” acolhiam a viragem do século com a sua reinvenção para além do universo rock’n’roll mais clássico. Se juntarmos a esta magnífica canção uma outra, que recentemente os Radiohead nos deram a conhecer, mostrando a “Bond song” perfeita que a produção do último 007 pelos vistos não quis levar ao filme, começamos a sentir que, após uma pausa para arejar ideias, podemos estar perante um regresso em grande forma... Nada contudo como esperar para depois tirar conclusões só depois de escutado o disco que, tudo indica, vem aí a caminho.

O passarinho que trouxe a boa nova juntou entretanto mais um dado interessante. É que “Burn The Witch” (que tem daqueles telediscos de animação em que a candura dos bonecos em nada traduz a violência da narrativa que protagonizam) surgiu logo em plataformas digitais, dos espaços de streaming áudio ao próprio YouTube, lugares que não eram do agrado nem entusiasmo maior, pelo menos de Thom Yorke, o vocalista do grupo. Há, de facto, questões a resolver no patamar da relação dos músicos com estes serviços. Mas os Radiohead perceberam que a sua voz não seria a mesma nem esta canção chegaria tão longe e seria tão eficaz para assegurar um regresso bem notado, se ali não estivesse. Vão a tempo, porque têm dimensão para isso, de, depois, como Taylor Swift, vetar eventualmente a presença do álbum nestes serviços. Mas para já, e a bem da comunicação de um regresso que tem tudo para ser bem sucedido, souberam dar ao passarinho uma voz por todo o lado.