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Este festival não é (só) para velhos

A mania de associar a idade dos artistas à do seu público é um erro frequente

Foi ontem anunciado: entre 7 e 9 de outubro vai acontecer o festival Desert Trip. Sucede em Indio, na Califórnia, Estados Unidos da América, no mesmo local onde nos últimos anos tem lugar o festival de Coachella. Ao contrário deste, porém, o cartaz não tem mais de dois nomes por dia. Atentem: Bob Dylan e Rolling Stones a abrir, Paul McCartney e Neil Young no segundo dia e Roger Waters e The Who a fechar.

A organização é da Goldenvoice, a mesma promotora do festival Coachella que neste caso também garante a participação no certame dos melhores restaurantes de Los Angeles. Preço dos bilhetes? O mais barato, só para um dia, custa 199 dólares, isto é, cerca de 173 euros. O passe de três dias já vale 347 euros. Mas para quem quiser uma viagem mais descansada até ao deserto e assistir aos concertos numa bancada ou área reservada, há entradas que orçam em 1389 euros. É caro? Talvez, ainda que este já tenha sido considerado o santo graal dos festivais. Mas, perdoem-me, é só mais um festival.

Se na indústria da música, e de uma forma geral em todos os ramos da comunicação social, o erro mais comum é confundirmo-nos com o mercado, o contrário também é verdade. Nesse particular, a falha mais frequente é atribuirmos a um dado género, faixa etária ou classe social uma dada preferência quando, na verdade, as coisas são sempre mais complexas e pouco dadas às simplificações baratas que nos garantem conforto mas que não colam com a realidade.

Isto vem bem a propósito deste festival que vai reunir, nos terrenos do Empire Polo Club, grande parte dos mais vetustos e considerados protagonistas da música popular como são os Rolling Stones, Paul McCartney, Bob Dylan, Neil Young, The Who e Roger Waters. Dois vícios levariam a acreditar que se se trata de um festival é para gente jovem. E se é com estes nomes então será certamente um evento para velhotes. Dois erros juntos não dão bom resultado.

Ora, nem um nem o outro pressuposto parecem resistir ao mínimo teste. Nem os festivais são frequentados unicamente por jovens, assim o dizem as estatísticas não só de Portugal como do resto do mundo ocidental, nem estes artistas seniores têm uma audiência composta exclusivamente por cotas. Mesmo que os diretores de marketing gostem de pensar assim, os números dizem o contrário.

Não se trata de senso comum, ainda que bastasse frequentar um qualquer festival de verão ou um concerto dos Rolling Stones para constatar exatamente o contrário.

O que isto quer dizer é que a Desert Trip é apenas um festival como todos os outros. Se do seu cartaz fazem parte dois dos artistas mais caros do universo pop/rock, como é o caso de Paul McCartney e dos Rolling Stones, isso só quer dizer que o preço dos bilhetes pode subir. E não tanto como seria de esperar.

Afinal, um passe para Coachella (com autocarro) custava 399 euros. E existiam entradas, com alojamento incluído, que iam até aos 5200 dólares e aqui creio que já não vale na pena traduzir o valor para euros.

Ou seja, acreditar que o festival Desert Trip vai ser frequentado só por velhinhos de bengala é cair na mais antiga burla do mundo. Apesar de todas as piadolas - já lhe chamam o Oldchella - que irão surgir nos próximos dias. Fazer fé nisso faz tanto sentido quanto pensar que no MEO Sudoeste só existem adolescentes.

Felizmente, o mundo é mais complexo. A música de ontem interessa aos mais novos. E - valha-nos Deus se é preciso estar a escrever isto - a música de hoje interessa aos mais velhos. Bob Dylan, provavelmente, nunca foi tão atual. E não vale a pena esquecer que os Stones, que recentemente tocaram em Havana para uma audiência que se aproximava do milhão de espectadores, provaram que os tempos mudaram mesmo. E que, por estes dias, no admirável mundo velho da música popular a antiguidade também é um posto.