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A Antena 3 a agitar as águas da alternativa pop

Algumas rádios têm demonstrado capacidade de entender as transformações operadas na idade digital. A Antena 3 é um caso claro de sucesso, defende Rui Miguel Abreu

Há exactamente 10 anos, afiança-me o site thisdayinmusic.com, Bob Dylan estreava na XM Satellite Radio o seu programa Theme Time Radio Hour. Na primeira emissão de todas tocou Blur, Prince, Billy Bragg, Wilco, Mary Gauthier, L.L. Cool J e os The Streets. Nesta década, entretanto, a rádio tem mudado muito, mas ainda assim tem resistido enquanto ideia, mesmo se a tecnologia alterou para sempre a forma como a ouvimos (tal como transformou as nossas relações com os discos, com os livros, com a imprensa, com a televisão, com os outros, até...). Ainda nesta passada sexta feira, a rádio - no caso a Beats 1, da Apple - foi o veículo escolhido por Drake para avançar o seu novo trabalho, VIEWS, para o mundo.

E por cá? Por cá, a rádio também começou a dar sinais de se querer transformar. Aventuras como a Rádio Quantica (radioquantica.com) são cruciais espaços de liberdade onde criadores comunicam com outros criadores e quem mais os quiser sintonizar a partir de qualquer browser sintonizado na frequência - ou no espaço com free wi-fi - certa.

Mas queria aqui dedicar algumas palavras à "minha" Antena 3. A valorosa equipa comandada por Nuno Reis, Henrique Amaro e Luís Oliveira devolveu ao imenso espaço que a própria rádio identifica como "alternativa pop" um entusiasmo que há muito não se vislumbrava e, inteligentemente, soube dar voz aos protagonistas da agitação: de Branko a Samuel Úria, de DJ Ride a Joaquim Albergaria, Moullinex ou Legendary Tigerman, muitos têm sido os agentes da vibração coletiva a tomar os microfones da 3 para nos oferecerem perspetivas singulares sobre o que importa - a música.

Nesta nova idade digital percebeu-se que a rádio já não pode existir separada das vozes que carregam, de uma maneira ou outra, a história. Daí casos como os de Bob Dylan, na XM, ou Drake e Dr Dre, na Beats 1. A Antena 3 segue pelo mesmo caminho. E depois há espaços, como o No Ar, que pegam nas bandas e na ideia primordial das Peel Sessions e as transportam de palcos e estúdios mais ou menos secretos para as ondas hertzianas, para o oceano da internet, para a televisão até. Isso já aconteceu com artistas como Capicua, Dirty Coal Train ou Orelha Negra, por exemplo, e os resultados têm sido incríveis. E há os especiais, os espaços de autor, os documentários sobre editoras ou estúdios carregados de história (estes últimos assinados por mim e pelo Eduardo Morais) e a playlist sempre atenta ao que a música portuguesa vai gerando de mais desafiante.

No passado, plataformas como o Rock Rendez Vous, o próprio Blitz, o Pop Off ou até aventuras do início do cabo como a Sol Música revelaram-se factores importantes na agitação coletiva da nova música nacional. Houve bandas que nasceram porque queriam ir aos concursos de música moderna do RRV, outras que cresceram porque captaram a atenção do Blitz ou do Pop Off, tantas que ganharam visibilidade por causa da permeabilidade do Sol Música (esse canal foi, por exemplo, importante para o fenómeno Sam The Kid e o impacto de "Não Percebes o Hip Hop").

Acredito que o posicionamento da Antena 3 está também a contribuir para agitar as águas da "alternativa pop" nacional e, dessa forma, a cumprir com distinção a sua missão de serviço público. Pode fazer mais? Claro que sim, é para isso que serve o futuro - para se crescer. Mas há quanto tempo não se sentia esta força, este querer, este dinamismo? Nos meus ouvidos, pelo menos, há algum. Vai com algum atraso, o aniversário já foi assinalado e tudo, mas não é uma data que motiva este gesto público de "parabéns" que aqui assino, antes uma atitude que considero deveras importante para que este espaço mais canhoto da nossa música também possa crescer: parabéns, Antena 3 - a alternativa pop já precisava de uma voz assim, alternativa também, mas sólida, séria e carregada de vontade. Venha então o futuro.