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O meu serão na casa de Prince

Em finais do outono de 1996 estive em Paisley Park para assistir ao lançamento do álbum Emancipation, numa daquelas raras oportunidades em que Prince abriu as portas de casa a olhares curiosos

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Ouvir a voz pausada de Prince a responder-me quase ao ouvido, escutar as suas gargalhadas quando, francamente, se dirigia aos convidados dizendo “tenho um disco para vender!”, ver a gaiola dourada para pássaros que conhecemos do teledisco de “When Doves Cry”, andar entre os estúdios de gravação, ver um concerto e, depois, uma jam session do artista no grande estúdio de televisão que tem em casa, comer bolo de chocolate forrado a finíssima folha de ouro... São memórias de um serão passado em Paisley Park, naquele raro episódio em que as portas de um dos mais míticos palácios da música do nosso tempo abriu as portas a quem vinha de fora.

Foi há quase 20 anos, em finais do outono de 1996, quando Prince não gostava que usassem o seu nome e optava por se apresentar graficamente na forma de símbolo, obrigando contudo quem falava àquela ladainha que parecia ser servo perante o suserano, chamando-lhe “o artista antes conhecido como Prince”... Uma perda de tempo (e de energia) que, a seu tempo, se resolveu, devolvendo o nome a seu nome. Para simplificar as coisas chamemos-lhe, então... Prince. Simplesmente Prince.

Terminado o conflito legal que o colocara em confronto aberto com a editora pela qual gravara desde 1978 (e pela qual, curiosamente, voltou a lançar os seus discos depois de 2014), Prince preparava a edição de Emancipation respirando um “renascimento da liberdade” um pouco como a memória Americana recorda no célebre “Gettysburg Adress” de Lincoln que definiu o caminho futuro para os cidadãos dos EUA... E com um sentido de teatralidade de quem dá o seu grito do Ipiranga sabendo que aquela revolução seria vista na televisão. E não só.

Para assegurar a amplificação mediática do acontecimento Prince (ou, melhor, o seu staff) convidou um jornalista por país. E o editor que, em cada território, asseguraria o lançamento de um disco que, lançado pela NPG Records do próprio artista, teria distribuição assegurada pela EMI. Fomos, assim, de Lisboa, em 12 horas de viagem repartidas entre dois voos (com escala em Indianápolis), eu e o David Ferreira, administrador da EMI portuguesa. Convém aqui dizer, e antes de entrarmos em Paisley Park, que não podia ter tido melhor companheiro de viagem já que, enquanto a multidão de outros executivos rumou ao Mall of The Americas, o “shopping” que era descrito à boca cheia pelas senhoras da receção do hotel como a coisa mais maravilhosa da cidade, o David pegou em mim e desafiou-me a andar entre as ruas de Minneapolis e St. Paul, passando até pela casa que fora de Scott Fizgerald. E depois, mas em versão mais de dieta, lá passamos pelo “mall”...

Só à noite éramos esperados em Paisley Park. Foram ainda uns minutos de estrada até lá chegar. E passada a cerca e o portão, um edifício branco, de arrumação geométrica, com dois andares de pé direito alto e janelas de linhas simples, revelava o destino esperado. À volta, um relvado bem aprumado... Era ali.

Entrei pela porta principal (há uma outra, de acesso direto ao estúdio de televisão, pela qual chegariam os cerca de 250 fãs que iriam, às 23 horas, assistir ao concerto que seria então transmitido em direto por alguns canais de cabo). A primeira imagem que recordo ao entrar é a de uma pintura dos olhos de Prince sobre o corredor que parte para lá do hall... Como quem diz “estou a ver-vos”. Orwelliano, talvez, mas em regime mais sedutor do que assustador.

Paisley Park envolve uma zona de trabalho com escritórios e uma área residencial à qual, naturalmente, não tivemos acesso. Pelo que a festa de lançamento de Emancipation se fazia essencialmente entre os três estúdios de gravação, o de ensaios, o grande estúdio de televisão e o átrio e corredores que ligavam esta parte da estrutura. E já era espaço quanto baste, mesmo para tanta gente.

Paredes e tetos pintados adornavam os espaços em volta. Pelas paredes havia nuvens. E troféus discográficos (discos de ouro e platina) não só de Prince mas também de outros discos ali gravados, como Like a Prayer de Madonna (onde ele mesmo cantou um dueto em “Love Song”) ou Out Of Time dos R.E.M.. Olhando para cima víamos a sugestão de um céu noturno estrelado, com um rebordo feito a teclas de piano. Aqui e ali, o símbolo que dilui as marcas de identidade de género e que, mesmo tendo depois Prince retomado o seu nome, dele não mais se separou.

Às dez da noite, uma hora antes da atuação televisiva, a porta que une o complexo residencial ao átrio dos estúdios abriu-se e, qual figura da realeza (afinal era Prince), o artista desceu as escadas exalando um magnetismo que não deixou ninguém indiferente. Todos pararam de comer, beber, falar... Ele estava agora entre nós. E, com ele, desciam as escadas, num movimento vagaroso e teatral, uma pequena corte onde se destacavam a mulher Mayté e alguns altos funcionários de Paisley Park. E, com eles, um corpulento agente de segurança.

Como qualquer anfitrião, Prince caminhou então entre os convidados, aqui e ali trocando palavras com quem ali estava. Disse então que era um homem “liberto, feliz, casado” e com o disco que nascera para fazer. Minutos depois subia ao palco para, depois de apresentar o teledisco do novo single “Betcha By Golly Wow”, fazer um percurso, guitarra na mão e microfone pela frente, ao som de “Jam of the Year”, “Purple Rain”, “Get Your Groove On”, “Join in Repetition”, “If I Was Your Girlfriend” (que incluiu uma citação a “Sexy MF”) e “One of Us”. Hora e meia depois, para o grupo mais restrito de convidados da imprensa e indústria, deu-nos novamente ali a oportunidade de, com a nova formação da New Power Generation, presenciar o ambiente de uma “jam session”. E, depois, com a corte com quem descera as escadas, voltou a subir os degraus com a mesma lentidão majestática.

Para noite de emancipação não podia ser melhor.

P.S. Do bolo de ouro só me lembro da parte do chocolate, que era amargo e bom.