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Beyoncé: a pop como ato de revolução

Lemonade acaba de chegar e ao longo das próximas semanas vai certamente ser ouvido com atenção e descodificado em todas as suas múltiplas camadas. Mas, a quente, Rui Miguel Abreu acredita que é uma pequena revolução. Na vida de Beyoncé e Jay-Z, claro, mas com o poder de inspirar muitas outras mudanças

Hoje é 26 de abril, o simbólico dia que se seguiu à revolução, o verdadeiro dia da liberdade, porque aquele em que todos nos metemos a caminho depois de seguras as conquistas. Se o 25 de Abril foi o ponto final, o dia 26 foi o parágrafo seguinte. Faz por isso sentido escrever hoje sobre Lemonade, o mais recente trabalho de Beyoncé, atirado para o mundo no dia 24, sem grandes avisos prévios, sem que se soubesse o que aí vinha. Como deve ser com as revoluções.

Lemonade aterra no mundo após o choque que foi o repentino desaparecimento de Prince. E há, obviamente, uma ligação entre o génio de Minneapolis e a Rainha Bey: ambos perceberam que a música, mesmo a pop - ou talvez deva antes escrever “sobretudo a pop” - pode ser uma ferramenta de superação, não apenas um emprego, mas uma plataforma de mudança e transformação. Dos artistas, claro, mas também do mundo.

Já chorámos Prince, agora é o dia seguinte. Olhemos para Beyoncé a quem o mundo ofereceu, de facto, alguns limões. E quando tal acontece, a melhor solução é mesmo fazer limonada. Já se tinha percebido em fevereiro passado que Bey não está pelos ajustes e que não devemos contar com ela para ser uma simples estrela pop a cantar canções de açúcar, descartáveis. “Formation”, que fecha Lemonade, é um chamamento para que toda uma geração se erga acima do que dela se espera. A mensagem de empowerment do tema que Beyoncé estreou no intervalo do Super Bowl já foi dissecada, mas nem esse autêntico terramoto pop nos deixou preparados para o que nos traz este Lemonade.

O álbum é uma carta aberta a Jay-Z, um aviso claro, um ultimato. Beyoncé usa o formato da canção pop não como uma terapia ou uma mera crónica do seu casamento, mas como um manifesto, uma declaração que pretende ser o primeiro passo de uma revolução de costumes: numa América onde a herança cultural afro-americana representa um fardo que nem todos conseguem carregar, Bey parece dizer “basta” ou, como se ouve em “Sorry”, um redondo “Hell, no!” E esse sonoro “não” é múltiplo: não, Beyoncé não se vai limitar a cantar o que lhe meterem à frente preocupada apenas em chegar ao primeiro lugar do top; não, Beyoncé não vai ser um cliché na sua vida privada e reduzir-se a um papel subalterno; não, ela não vai fingir que as traições do marido não existiram; não, ela não vai sorrir na foto de família para vender ao mundo uma felicidade que não é real; não, ela não vai deixar que a cor da sua pele a impeça de alcançar tudo aquilo a que ela sabe que tem direito.

As revoluções não passam disso: de gente que diz “não”, de gente que recusa uma ordem pré-estabelecida e que se propõe transformar o mundo. Há revoluções de todos os tamanhos e feitios: sociais, globais, locais ou íntimas. A de Beyoncé é esta. Chama-se Lemonade e certamente deixou Jay-Z em sentido. Agora imaginem o efeito que estas canções poderão ter sobre todas as meninas de todos os bairros da América e mais além.

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