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5 canções para Shakespeare, e outras 5 para Cervantes

A dias de se assinalar a data oficial dos 400 anos da morte de ambos os escritores, recordamos algumas abordagens da música popular a dois vultos maiores da história das letras

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Durante muito tempo 23 de abril de 1616 foi tomado como correspondendo ao dia da morte de Miguel de Cervantes e de William Shakespeare, duas das maiores figuras da história da literatura. Mas na verdade não foi bem assim... Hoje sabemos que Cervantes foi de facto sepultado nesse dia, mas tinha morrido na véspera. E porque na altura Inglaterra ainda não usava o calendário gregoriano (ao qual só aderiu no século XVIII e hoje rege o nosso tempo), afinal a data da morte de Shakespeare ocorreu alguns dias depois, a 3 de maio... Mas, como diz aquela velha regra, entre o mito e a realidade, fale-se do mito. E será este domingo, dia 23, que muitas das celebrações dedicadas à memória e obra destes dois grandes escritores ganharão visibilidade maior. E assim sendo, a tempo de preparar uma banda sonora mais pop(ular) para lembrar ambos, aqui ficam cinco canções inspiradas por Shakespeare mais outras tantas animadas por memórias de Cervantes (todas elas, neste caso, apontadas à figura mítica do seu D. Quixote).

Antes de começar o desfile, vale a pena lembrar que, ao longo dos séculos, não faltaram ocasiões em que tanto obras de Shakespeare como de Cervantes alimentaram os palcos de ópera ou produções de bailado. Do “Romeu e Julieta” de Tchaikovsky ao mais recente “The Tempest” de Thomas Adès, não esquecendo a “Marcha Nupcial” do “Sonho de Uma Noite de Verão” na visão de Mendelssohn ou até mesmo a essência inspiradora de “West Side Story” de Bernstein, ao “Don Quixotte, Der Lowënritter” de Telemann, o panorama é vasto e cruza épocas e géneros musicais.

E na hora de fazer canções, como foi?

Comecemos por Shakespeare:

1967. The Beatles “I Am The Walrus”

Depois de ter sabido que um professor estava a analisar, com os alunos, as letras dos Beatles, John Lennon pensou criar uma canção com uma letra o mais confusa possível. A meio do processo de gravação, um som escutado na rádio entrou diretamente na canção: era uma gravação, pela BBC, de uma produção de “O Rei Lear”.

1970. “The King Must Die”, de Elton John

Logo no primeiro verso desta canção do álbum “Elton John”, ouve-se cantar que ninguém é um bobo se estiver a interpretar Shakespeare numa sala do trono... É a primeira de uma série de alusões feitas numa canção que refere concretamente elementos de “Hamlet” e “Júlio César”

1973. John Cale “Macbeth”

Em 1973, a fechar o lado A do álbum “Paris 1919”, John Cale apresentou uma canção com o mesmo título de uma das mais célebres obras de Shakespeare. Uma das curiosidades da letra da canção de John Cale é o facto de citar, concretamente, algumas falas marcantes da peça.

1997. “Exit Music (For a Film)”, dos Radiohead

Thom Yorke viu uma adaptação da peça de Shakespeare por Franco Zefirelli quando era adolescente e aquele momento marcou-o. Anos mais tarde os Radiohead compuseram esta canção com letra que alude claramente a momentos da trama original e que seria usada nos créditos de uma versão moderna no cinema, por Baz Luhrman.

2016. “A Woman’s Face”, por Rufus Wainwright

Não é a primeira vez que Rufus Wainwright trabalha música sob textos de Shakespeare. De resto, no álbum “All Days Are Nights”, musicara já três sonetos seus, um deles agora retomado, numa nova versão, para integrar o novo álbum “Take All My Loves: 9 Shakespeare Sonnets”, editado esta semana.

E agora, Cervantes:

1966. “The Impossible Dream”, por Frank Sinatra

A canção mais popular do musical de Mitch Leigh “The Man of La Mancha”, estreada na Broadway em 1965, teve inúmeras versões gravadas em disco por vozes como Scott Walker, Andy Williams, Elvis Presley, Cher ou Frank Sinatra. Este última gravou-a para a incluir no alinhamento do álbum “That’s Life”, de 1966.

1968. “L’Homme de La Mancha”, de Jacques Brel

Jacques Brel traduziu, adaptou e protagonizou uma versão para língua francesa do musical de Mitch Leigh. A peça, a única aventura do género para o cantautor belga, estreou em Paris em dezembro de 1968. Jacques Brel editou depois um álbum versões em estúdio das canções usadas nesta produção que editou, ainda nesse mesmo ano, com o título “L’Homme de La Mancha”.

1972. “Don Quijote de Barba Y Gabán”, pelos Alma Y Vida

A presença de Cervantes no mundo musical em língua castelhana é vasta. E até Julio Iglésias o cantou em “Quijote” (do álbum “Monumentos”, de 1982). Esta é uma canção de uma banda de jazz rock e rock progressivo argentina. Surgia, em 1972, no alinhamento do seu álbum “Alma Y Vida”, para servir um programa poético claramente pacifista.

1985. “D. Quixote”, de Nik Kershaw

Fez sucesso com “I Won’t Let The Sun Go Down on Me” e “Wouldn’t It Be Good” que asseguraram êxito ao álbum de estreia e teve em “The Riddle” (tema título do segundo disco) outro single de impacte global. Antes de desaparecer quase sem deixar rasto, ainda editou, em single, esta canção, que integrava o alinhamento do segundo álbum.

2010. “D. Quixote (Spanish Rain)”, pelos Coldplay

Por ocasião de uma digressão em países da América Latina em 2010, os Coldplay apresentaram em palco uma canção que evoca a figura mítica criada por Cervantes, assim como a paisagem que lhe servce de cenário. A canção foi tocada ao vivo em apenas oito concertos, entre fevereiro e março de 2010.

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