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E se fosse comigo? De Beyoncé a NBC, Carlão e mais além

A estreia de um novo programa na SIC, com genérico de Carlão e Boss AC, a antecipação do próximo gesto de Beyoncé e ainda o peso da pele e da cultura: questões que afligem Rui Miguel Abreu

Há dias em que tudo parece misturar-se, na cabeça e fora dela, na rua e na televisão, na música que se ouve e na que se antecipa, nos livros que se tem entre mãos. Permitam que comece por aqui: de um aeroporto trouxe recentemente um livro que é tudo menos leitura “light” – Between The World and Me, aplaudido “bestseller” do jornalista norte-americano Ta-Nehisi Coates que é uma carta aberta ao seu filho de 15 anos. A viagem de avião de regresso a Portugal foi suficiente para devorar um pouco mais de metade das cerca de 150 páginas de uma pungente missiva paternal sobre o peso que carrega afinal o tom de pele mais escura na América que neste momento se debate entre Hillary Clinton, Bernie Sanders e Donald Trump.

Entretanto, ontem mesmo, vi o assombroso “trailer” de Lemonade, o próximo gesto artístico (um álbum? um filme? uma canção? uma linha nova de roupas?) de Beyoncé, uma artista americana que ocupa um lugar central no presente mapa pop, artista “mainstream” que vende milhões de bilhetes de concertos em todo o mundo, que tem linhas de merchandising agressivas e que, ainda assim, conseguiu recentemente graças à sua passagem pelo intervalo do Super Bowl e ao extraordinário vídeo de “Formation” impôr ao seu país um debate sobre a raça, sobre a pele, sobre a violência e sobre o legado moral da história complexa de uma América que continua perdida. Beyoncé, parece cada vez mais óbvio, compreende que o púlpito que o sucesso pop lhe oferece não pode ser esvaziado apenas com a venda de bilhetes e camisolas e que sobre os seus ombros recai o peso de uma transformação que a América precisa de operar. Goste-se ou não da música (e não há nada para não gostar, muito pelo contrário – os sinais dados por “Formation” e pela banda sonora deste trailer de “Lemonade” são entusiasmantes), não há como não admirar a nobreza da missão que Bey parece ter assumido. Veremos onde a leva...

Entretanto, estreou ontem na SIC um novo programa de televisão, com Conceição Lino ao leme, que procura olhar para dentro de nós, portugueses, confrontando-nos com aquelas situações que sabemos que todos os dias acontecem à nossa volta. O tema da emissão inaugural de E Se Fosse Consigo? foi o racismo. “Somos ou não somos racistas?” A pergunta tem uma resposta clara. Eu tenho 46 anos, cresci com visitas escolares ao Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, monumento do Estado Novo onde se glorificava uma visão benigna do Império com traço do genial Cassiano Branco. O meu pai, com quem ontem falei depois da emissão do programa, garante-me que não, “nunca fomos como os outros”. Compreendo o meu pai. Compreendo também NBC, cantor e rapper que ontem apontava a estátua do herói Eusébio como sinal de que não vivemos numa sociedade racista (onde estão as estátuas de médicos, presidentes, cantores, cientistas, poetas ou bombeiros negros?). Mas ainda recentemente li que o império português garantiu, sozinho, quase 50 por cento do fluxo de escravos para o Novo Mundo. Ainda há poucos meses vi uma ministra ser notícia por ser a primeira negra num governo português. E ainda ontem vi, nesse mesmo programa, uma menina, pequena, em idade de visitar ela mesma o Portugal dos Pequenitos, dizer que não se acha bonita, que escolheria a boneca branca e que a cor de pele mais escura equivale a “mau” enquanto a mais clara implica o seu contrário.

Portugal, como a América, ainda tem muito que fazer. E Portugal, como a América, precisa de vozes como a de Beyoncé que nos falem, do alto do seu púlpito pop, que gostam das suas crianças com afros e com narinas à Jackson 5. Que ensinem aquelas crianças que não, pele castanha não é sinónimo de “mau” ou de “feio”. Carlão, que assina com Boss AC a música do genérico do programa de Conceição Lino, está a cumprir a sua parte quando canta em “Krioula” “és perfeita”, “não alises o cabelo” e “o teu rabo levita e parece que levanta halteres”. Mas são precisas mais vozes para formar um coro que faça diferença. Este passado, o nosso passado, precisa de mais verdades. E este presente precisa de mais ministros e estrelas pop e cientistas e bonecas e futebolistas de todas as cores. Porque se há crianças que não se acham bonitas, nós não podemos descansar. Por muitos Eusébios que nos apazigúem a culpa.

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