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Rita Carmo

AC/DC com Axl Rose: the show must go on?

Ao longo de mais de 40 anos, os AC/DC perderam membros com assustadora frequência. Sobreviverão à perda do vocalista Brian Johnson, agora substituído por Axl Rose?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em novembro de 2014, calhou-me ir à Alemanha, mais precisamente à cidade de Düsseldorf, entrevistar os AC/DC. Numa escala do voo, se não me engano em Zurique, sou surpreendida – tal como a representante da editora que comigo viajava – com a notícia da prisão de Phil Rudd, baterista da banda desde meados dos anos 70, ainda que com algumas erráticas interrupções. Será que ainda vai haver entrevista?, questionei-me.

Houve, claro. No dia seguinte, subi até um quarto de hotel numa larga avenida de Düsseldorf onde, com um jornalista sueco e outro norueguês, coloquei algumas questões ao afável Cliff Williams, membro da banda australiana também desde a década de 70, e ao intrigante Angus Young. Se uso esta palavra não é porque as respostas do mentor e guitarrista dos AC/DC tenham comportado grande mistério, antes pelo contrário – revisitar a gravação da entrevista é encontrar declarações simples, diretas, um pouco à semelhança da música contundente que o grupo vem fazendo há mais de 40 anos. O que me intrigou, afinal? Que Angus Young, de quem guardamos aquela memória eletrizante de animal de palco, se apresentasse à nossa frente daquela forma singela: mais baixo que eu (1m57, diz a internet, e quem somos nós para duvidar), curvado sobre si mesmo e segurando uma chávena fumegante (diz a lenda dos AC/DC que a única vez que Angus bebeu álcool, para celebrar o nascimento da primeira filha do seu irmão Malcolm, teve de ser carregado em ombros para a cama). Estaria este homem em condições para levar o álbum que então promovia, Rock or Bust, numa digressão mundial?

Estava, claro. Provando que o rock ‘n’ roll de que se alimenta desde tenra idade funciona como uma espécie de elixir da eterna juventude, o diminuto escocês e seus companheiros começaram a Rock or Bust World Tour há precisamente um ano, em Coachella, e desde então deram largas dezenas de concertos na América do Norte, Europa e nos Antípodas, claro. Foi só este ano, mais precisamente em finais de fevereiro, que à saída de Phil Rudd, que acabaria por ser condenado a prisão domiciliária, e de Malcolm Young, internado com demência, se juntou mais uma contrariedade: Brian Johnson, que ingressou na banda há praticamente tantos anos quantos eu levo de vida, para substituir o malogrado Bon Scott, foi afastado do clã, aparentemente por problemas de audição. Se continuasse a tocar ao vivo, poderia ficar completamente surdo, terão dito os médicos. Esta é a versão da banda, contrariada pelas declarações de um amigo de Brian Johnson, segundo o qual o vocalista foi «corrido» dos AC/DC, sem sequer ter direito a um telefonema. Perder Phil Rudd, entretanto substituído por Chris Slade, foi duro. Perder Malcolm Young, por muitos considerado a verdadeira turbina da banda, quase trágico. Mas Brian Johnson? Ainda que não seja o vocalista «de raiz», foi com ele que os AC/DC atingiram o seu maior êxito, com Back In Black, lançado após a morte de Bon Scott e nada mais nada menos que o segundo álbum mais vendido de todos os tempos, apenas suplantado por Thriller, de Michael Jackson. É ele que hordas de fãs se habituaram a ver a liderar as tropas de «Thunderstruck» e «You Shook Me All Night Long» ao longo de quase 40 anos. Seriam os AC/DC capazes de superar mais esta adversidade e dar os restantes concertos da digressão, entre os quais o de Algés, no próximo dia 7?

Seriam, claro. Uma banda desta dimensão não chegou aos 40 e tal anos de vida, sempre a jogar no topo do seu campeonato, com sentimentalismos ou palavras mansas. No sábado à noite, pouco antes de os Guns N’ Roses darem o muito aguardado concerto em Coachella, os AC/DC quebraram o silêncio que parece ser a sua regra de ouro e confirmaram um boato com várias semanas: Axl Rose é mesmo o vocalista convidado que fará os próximos concertos da Rock or Bust World Tour, incluindo o do Passeio Marítimo de Algés, no próximo dia 7. A indignação de muitos fãs foi imediata, e é bem visível nas páginas da banda e da promotora nas redes sociais. Outros entusiasmaram-se com a perspetiva de ver Axl Rose (que, entretanto, e para não destoar dos impedimentos físicos dos companheiros, partiu o pé) e prometem comparecer ao concerto do qual tantos outros parecem ter desistido. Os primeiros vídeos de Coachella, onde Axl chamou a palco Angus Young para tocar dois temas, numa espécie de aperitivo do que aí vem, serenaram a raiva de alguns, mas nem todos querem acreditar nesta evidência: Axl Rose é – ainda que, porventura, apenas durante estas datas ao vivo – o novo vocalista dos AC/DC.

E será que os dinossauros de Glasgow via Sydney aguentam mais este embate à sua dura carapaça? Parafraseando uma das mais míticas frases dos últimos anos, e face à estoicidade demonstrada pela turma de Angus Young desde o primeiro dia, «ai aguentam, aguentam».