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Ontem gin, hoje vinil, amanhã café de saco

Quase metade das pessoas que compram discos em vinil nem os desembrulha. É o que diz uma sondagem no Reino Unido. E não é nada espantoso

Morto e enterrado durante os anos de glória do Compact Disc, o vinil ressurgiu esta década enquanto produto de uma indústria que encontrou, na mesma altura, a sua tábua de salvação em sentido inverso: a desmaterialização efetiva, um anti-objeto chamado streaming.

O charme vintage do “injustiçado” vinil tem o seu lobby: por vezes, uma leitura desatenta do noticiário pode fazer crer que o vinil se transformou no Leicester desta liga milionária, no “underdog” que apanha tudo e todos desprevenido, no “comeback kid” que, mais tarde do que cedo, repõe a verdade num mundo degenerado.

Sim, é certo que nos Estados Unidos o disco de vinil vende hoje mais do que em 1990, quando o CD se tornou dominante (a curva percentual é indesmentivelmente ascendente). Sim, é também verdade que às vezes se descuram miseravelmente as escalas: o comércio do fonograma em vinil é um nicho e, mesmo justificando notório investimento, representa pouco para as contas finais do grande negócio (em Inglaterra, bate nos 3%).

Custe o que custar aos defensores do calor dos graves, do ruído de fundo do analógico ou do ritual de pousar a agulha (tudo propriedades que podem ser vistas como admiráveis), a música ouve-se, hoje, maioritariamente de outra maneira (mesmo se o Youtube pouco rende a quem a faz). Mas não é só o streaming: fazer vinil custa dinheiro e grande parte das infraestruturas foi há muito descontinuada – os meios existentes têm 50 anos.

Uma sondagem no Reino Unido, país em que a música interessa e onde uma cadeia de supermercados como a Sainsbury reintroduziu o vinil nos seus escaparates, parece indicar que são os próprios compradores que não levam o seu apetite pelo vinil “a vias de facto”. Ou por outra, levam-no tão a sério que deixam os discos intactos, esgotando a sua afeição numa contemplação platónica. Números: 48% dos consumidores de vinil em Inglaterra não toca os discos que compra; desses, 41% possui um gira-discos que não usa e 7% admite que nem sequer tem onde tocar os discos, como o Jordan, de Manchester.

Não custa concluir que uma boa fatia dos “vinyl lovers” encarará o formato não como uma maneira adequada de fruição de música (lá se vai o calor dos graves), mas como um objeto decorativo ou um portal para as vibrações do antigamente (o intervalo etário mais comprador é o 25-34). Outra haverá certamente que o vê como investimento: o vinil é caro e, pelo facto de não ser produzido em quantidades exorbitantes, valoriza (e valoriza mais em estado novo do que usado) – o mercado do colecionismo não é novidade. E ainda existirá uma franja mais difícil de dimensionar que apanhou o comboio da visita turística ao rústico centro histórico, mas sairá logo que possa para ir comer um hambúrguer ao centro comercial. Em vinil, por causa das modas (não que haja algo de errado nisso).