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Que poder tem um músico?

Ao levantar a sua voz contra uma lei na Carolina do Norte que abria terreno à discriminação pela orientação sexual ou identidade de género, Bruce Springsteen foi, dos muitos que protestaram, aquele que mais se fez escutar

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

É frequente reconhecermos a alma mais política de um músico nas canções que canta, nas entrevistas que dá e, eventualmente, nas tomadas de posição em favor deste ou daquele candidato. E em terreno pop/rock a coisa frequentemente costuma apontar mais em favor do progresso dos hábitos e das ideias do que na direção de opções mais conservadoras. De resto, se olharmos neste momento para o universo norte-americano, a maioria dos “endorsments” (ou seja, as tomadas de partido em favor de) junto dos vários candidatos nas primárias parecem afunilar-se, na sua maioria, no sentido do democrata Bernie Sanders, o que não surpreende já que parece ele estar a ser também o nome mais destacado junto dos eleitores mais jovens nas várias sondagens que têm sido feitas nos diversos estados antes das respetivas chamadas ao voto. Ainda ontem, em Nova Iorque, os Vampire Weekend e os Dirty Projectors tocaram, a seu lado, num comício do candidato. De resto, se o Drudge Report, um agregador de notícias de tendência conservadora, acaba de ser acusado pelo republicano Ted Cruz como estando do lado de Donald Trump, já entre os mais claros apoiantes (mesmo não expressamente declarados) de Bernie Sanders está um site de informação sobre música: a Pitchfork, que frequentemente noticia factos (musicais) associados à campanha do senador veterano que continua a incomodar a candidatura de Hillary Clinton na corrida à nomeação pelo Partido Democrático.

Há todavia, e já que falamos de cenários e figuras norte-americanas, exemplos bem recentes de como uma atitude de um músico pode ter um peso político bem sonoro. Bryan Adams cancelou há poucos dias um concerto em Biloxi, no Mississipi, por condenar a recente legislação estadual que abriu espaço a formas de discriminação contra pessoas LGBT. A decisão seguiu assim uma atitude semelhante tomada também esta semana por Bruce Springsteen face a uma atuação em Greensboro, na Carolina do Norte, onde o Governador promulgou recentemente legislação semelhante. A tomada de posição de Springsteen (à qual se juntou ontem outra, de igual tom, de Ringo Starr, que desmarcou uma atuação no mesmo estado) causou tão forte impacte quanto as reações de grandes empresas que ameaçaram o poder político com medidas de desinvestimento naquele estado caso a lei não seja revogada.

Em declarações que tornou públicas, Bruce Springsteen, criticou a legislação que retira formas anti-discriminação face a pessoas LGBT antes em vigor e que obriga as pessoas transgénero a frequentar as casas de banho que servem o género com que nasceram (o que, mais do que apenas insultuoso, pode representar uma violência para os visados). O músico afirmou que esta lei “é uma tentativa de inverter o progresso por parte de pessoas que não suportam os avanços que o país fez ao reconhecer os direitos humanos de todos os seus cidadãos”. Acrescentou ainda que “há coisas mais importantes do que um concerto de rock e esta luta contra o preconceito e a intolerância é uma delas”. E garantiu que continuará a levantar a sua voz contra os que querem “continuar a puxar para trás em vez de avançar”.

A voz de Bruce Springsteen juntou-se assim à de vários grandes executivos de empresas das mais variadas áreas de negócio. E surgiu depois de algumas delas terem ameaçado dirigir para outros lugares investimentos que criaram novos empregos no estado. A NBA levantou também a possibilidade de desviar para outro estado o All-Star Game de 2017, originalmente previsto para ter lugar em Charlotte. Na frente política, os candidatos democratas Hillary Clinton e Bernie Sanders condenaram ambos esta legislação. E John Kasich, um dos candidatos à nomeação republicana (e que é atualmente governador do Ohio) disse que não teria promulgado a lei. Já o Procurador-Geral Roy Cooper, candidato democrata que vai disputar em novembro o lugar de governador de Pat McCrory (que assinou a lei), está a usar a sua oposição a esta política discriminatória como um argumento em seu favor.

Apesar da sucessiva tomada de posição de políticos e grandes empresas, foi, contudo depois do mediatismo maior que a voz de Springsteen arrebatou nos media globais que o governador republicano veio esta semana dizer que iria recuar em alguns aspetos desta legislação através de uma ação executiva. Mantendo contudo firme a sua posição quanto ao acesso das pessoas transgénero às casas de banho apenas de acordo com o que corresponde ao género com que nasceram.

Bruce, afinal ainda é preciso mais uma canção, se faz favor...