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Ser ou não ser rock and roll – eis a questão!

Ice Cube dos N.W.A. e Gene Simmons dos Kiss debatem uma velha questão que é, afinal, a questão da identidade racial na América

Numa entrevista à Rolling Stone, Gene Simmons declarou estar ansioso pela morte do rap e explicou que aguarda pelo dia em que a música regresse “à melodia e às letras, em vez de apenas paleio”. Na cerimónia de homenagem aos N.W.A. no Rock and Roll Hall Of Fame, primeiro, e no Twitter, depois, começou uma discussão, que opõe o antigo frontman dos Kiss e o ator e rapper Ice Cube.

Simmons não deseja apenas a morte de um género: não vê, igualmente, sentido na inclusão dos N.W.A. no panteão da instituição Rock and Roll Hall of Fame: “Quando os Led Zeppelin forem homenageados pelo Rap Hall of Fame falaremos”, argumentou, através da rede de micro-blogging. Ice Cube foi contrapondo que “rock and roll é um sentimento” e sublinhou como, na origem dessa cultura, muitos foram os artistas negros que para ela contribuíram: Chuck Berry e Little Richard, por exemplo. E, claro, não existe um Rap Hall of Fame...

Este feudo já deveria estar ultrapassado, já que nos encontramos em pleno 2016, mas a verdade é que, mesmo de pés firmemente plantados no século XXI, a música continua a ser palco fértil de velhas questões de identidade racial, de apropriação cultural. É a história da América a teimar em não se resolver.

LeRoi Jones (falecido em 2014), famoso intelectual e escritor negro que na década de 60 haveria de alterar o nome para Amiri Baraka (num mesmo gesto de reclamação de uma identidade ancestral que levou Cassius Clay a assumir o nome Muhammad Ali, por exemplo), escreveu no livro Blues People (1963) que o nascimento dos blues deriva diretamente da experiência americana dos escravos negros: no momento em que começaram a cantar blues, estes escravos largaram a sua identidade africana e ergueram uma nova – americana. Os blues são o resultado de uma experiência específica.

O rock and roll será, mais tarde, o resultado de uma outra experiência específica, a expressão de uma condição social no sul dos Estados Unidos: do caldeirão cultural resultante da partilha de uma mesma condição económica de pobreza, músicos brancos e negros, de blues, de country, de bluegrass, trocaram canções e moldaram um híbrido que depois ganhou um nome – rock and roll.

Nesta época, no final da segunda guerra mundial, a música popular não se dividia, numa América ainda segregada, tanto em termos de género quanto pela cor de pele dos artistas: as tabelas Hillbilly designavam a rica música dos pobres descendentes dos emigrantes europeus, das montanhas da Appalachia às ruas de Memphis ou Nashville; as tabelas de Race Music (música de raça...) reuniam tudo o que fosse executado por artistas negros, descendentes de escravos – blues, jazz, espirituais, música derivada do vaudeville, etc.

Na verdade, a América nunca se ergueu acima dessa divisão: a evolução da sociedade foi impondo novos designativos, supostamente menos carregados de conotações raciais, como Rhythm and Blues ou, mais tarde, Urban Music, mas o perfil racial de cada campo ficou muito bem marcado.

Vem daí, e apesar de pioneiros como os apontados por Ice Cube, a apropriação do rock and roll como um terreno de brancos. Mas, como se pode perceber pelo poster que aqui mostramos, tempos houve em que o diálogo musical era mais cego a questões de cor de pele do que a segregação nas páginas de revistas como a Billboard deixava perceber: Elvis a cantar “Hound Dog", de Big Mama Thornton, Hendrix a inventar a guitarra elétrica rock and roll a partir do legado blues, Ray Charles a gravar country, músicos brancos a moldarem a soul nos estúdios da Motown e da Stax, os Death de Detroit, os Living Colour, Sly Stone, Prince, Funkadelic, Eminem, Beastie Boys, Run DMC e Aerosmith. O diálogo entre as raças, entre os géneros, sempre existiu. Mesmo tendo em conta as complexas linhas divisórias da identidade racial e cultural da América.

Portanto, e pegando nas ideias defendidas por Gene Simmons: irá o rap morrer? Claro que não: como o rock, continuará a evoluir, a transformar-se, a refletir as próprias dinâmicas da evolução social e racial da América. É um género desprovido de “letras e melodia”, de sofisticação, portanto? Perguntem isso a Kendrick Lamar, por exemplo. E, questão suprema: será o rap parte do rock?

Na origem, o rock, o rock and roll, como os blues ou o country, antes, era um termo que designava tanto um som quanto uma classe etária e social, era o resultado de uma experiência específica, na América das cidades e dos clubes, da eletricidade e dos carros, do adolescente com mesada no bolso, dos drive-ins e dos hamburgueres, da rádio, do pulsar sexual da explosão hormonal. E essa América encontrava-se tanto em Elvis, Jerry Lee Lewis e Gene Vincent quanto em Chuck Berry, Little Richard ou Bo Diddley.

É difícil não perceber que essa energia particular que sempre animou o rock também se sente nos Beastie Boys e nos Run DMC, em Eminem ou nos N.W.A. e nos Run The Jewels, entre tantos outros nomes oriundos do género que Gene Simmons espera que tenha os dias contados. E tal como em 1956 o rock and roll significava algo de diferente em Memphis ou em Chicago, em Dallas ou em Nova Iorque, também em 2016 rock significará algo de diferente em Compton ou em Venice Beach, em Atlanta ou em Seattle.

Os festivais, internacionais e nacionais, começam a perceber isso programando gente como Kendrick Lamar ou Freddie Gibbs, para dar apenas dois exemplos que poderemos observar na temporada de eventos nacionais de 2016. Gene Simmons ainda vai demorar mais algum tempo a entender que não é uma questão de “letras e melodia” ou sequer da cor da pele, antes da forma como se traduz uma determinada experiência com as ferramentas disponibilizadas por cada cultura. Afinal de contas há tanto rock em Allen Halloween quanto rap em B Fachada. Ou não?

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