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Gosta de ir ao YouTube ouvir música? Isso pode acabar

A publicação, ontem, das estatísticas da indústria discográfica para 2015 mostra que o YouTube paga muito mal a editoras, músicos e detentores de direitos. A situação é insustentável

Já se sabia, mas não se conhecia a dimensão do problema. Ontem, com a revelação do boletim estatístico da IFPI (Federação Internacional dos Produtores Fonográficos) relativo a 2015 tornou-se claro o tamanho do buraco. O privilégio do YouTube relativamente às outras plataformas e serviços que disponibilizam música é gigantesco. A plataforma de streaming da Google paga muito menos do que todos os outros serviços de utilizadores de música a ponto de a situação se ter tornado insustentável.

Hoje já não vale a pena fazer a apologia do streaming pois é uma realidade incontestável. No mundo inteiro, a venda de música em suportes digitais valeu 6,7 mil milhões de dólares durante o ano passado. A venda de produto físico, vulgo CD e vinil, não foi além dos 5,9 mil milhões de dólares. O crescimento do digital representa igualmente a morte do físico.

Mas o que todos os analistas começam hoje a retirar das contas ontem apresentadas são as diferenças praticadas no streaming. Dos tais 6,7 mil milhões de dólares devidos à circulação de música em suportes digitais, 2,9 mil milhões devem-se ao streaming. É uma subida de 900 milhões de dólares face a 2014! Mas destes 2,9 mil milhões de dólares, há dois mil milhões que são pagos pelos subscritores de serviços premium do Spotify, Apple Music, Tidal ou outros. Acontece que estes serviços são uttilizados por 68 milhões de pessoas em todo o mundo. Dá uma média anual de 42,65 dólares por cada utilizador, ou seja cerca de €37,4. É menos de um euro por semana. Dá pouco mais de três euros por mês para ter acesso a quase toda a música que existe no mundo (menos os Radiohead).

Pois bem, há também quem utilize as opções grátis destes serviços e, sobretudo, o YouTube. Para as editoras, músicos e detentores de direitos o que recebem por esta via decorre da publicidade que é "mostrada" antes e durante cada sessão. São cerca de 900 milhões de pessoas espalhadas pelo globo terrestre que contribuiram com um total de 634 milhões de dólares em 2015. Ora, isto dá uma média de 0,7 dólares por utilizador. São 61 cêntimos de euro por pessoa. Pouco mais de um cêntimo por semana ou cinco cêntimos por mês para ter acesso, sem alguns privilégios é certo, a quase toda a música do mundo.

Este equilíbrio instável põe em causa uma de duas coisas. Ou a viabilidade dos serviços de streaming, que serão incapazes de concorrer enquanto durar esta oferta do YouTube. Ou as tabelas que regulam os preços a pagar pela plataforma da Google.

Parece coisa que não nos diz respeito e que se passa entre grandes players do mercado. Mas é aqui que se está a decidir como vamos ouvir música num futuro mais ou menos próximo.