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E tu, onde é que estavas quando Kurt Cobain morreu?

Uma pergunta à qual será cada vez mais fácil responder

Esta pergunta já começou com uma resposta, esta semana, no Facebook: o vídeo do Jornal da Tarde da SIC em que Alberta Marques Fernandes noticia o desenlace fatal, no início de abril de 1994. 22 anos depois do desaparecimento do homem, foi partilhado vezes sem conta (não me lembro de tamanha evocação em efemérides recentes), transformando-se – pelo menos nesse 5 de abril de lembranças – na “memória oficial” do acontecimento. Até quem nasceu depois de 1994 se lembra de ter sido, precisamente, assim. Não há nada de errado nisso.

Não ousarei dizer que fui o único a saber da triste novidade por essa via (em 1994 havia quatro canais e a SIC era líder de audiências, ou estava perto disso), mas recordo-me de ter sido realmente assim: revejo o vídeo que dá conta das circunstâncias da morte do maior ícone rock do meu tempo de adolescência e encontro-me sentado na alcatifa da sala de casa dos meus pais, não demasiadamente surpreendido por um desfecho que, na minha mente simplista de 16 anos, era explicável por uma conjugação de fatores (drogas, desamores e rock and roll).

À época, não ser “dos Nirvana” era uma tomada de posição arriscada e significava alguma ostracização na Secundária. E ser “do contra” neste aspeto sensível era estar desatualizado, ficar para trás, ser desprovido de “estilo” – essa história dos outsiders silenciosos acabarem a sacar a miúda gira é só dos filmes dos anos 80, não existia no litoral-oeste.

Admito: por muito que as cassetes de “Nevermind” e, especialmente, “In Utero” tenham girado lá em casa, a minha imagem pública de ensimesmado a fingir-se esquisito e teimoso (e inimigo de toda e qualquer música nada e criada depois de 1979) obrigava-me a um exercício de cinismo que hoje entendo como completamente escusado: recusei-me a chorar as dores, zombei com os “lookalikes” de Cobain que vagueavam, andrajosos, pela escola, e – meses antes de Cobain dar de frosques – escrevi no jornal da escola que os Nirvana estavam mortos e enterrados (claro que durante meses não parei de me gabar da profecia).

Como algumas cabeças avariadas acabam por conseguir conserto, a minha relação com o mundo Nirvana foi melhorando consideravelmente com a idade (e o conhecimento do que vai além do “ruído” e do mito; nada como uma pessoa procurar sentir-se informada), ao ponto de – na década passada – ter comprado um livro com réplicas de memorabilia. A minha simpatia pelos gostos musicais de Cobain (como poderia ser mau alguém que via nos Teenage Fanclub a melhor banda do mundo?) e pelas suas posições públicas (o ataque à misoginia e à homofobia, monstros bem nutridos no início dos anos 90) acentuou-se com o passar dos anos. De facto, a única coisa chata sobre Cobain foi ele ter dado um tiro a si próprio.

Irascível mas profundamente cómica, a minha primeira senhoria em Lisboa – já septuagenária – tinha uma forma muito simples de lidar com as suas memórias: ia, ano após ano, limpando o que não lhe interessava. Na altura, estava na moda perguntar “onde é que estavas no 25 de Abril”? Comecei por conhecer a sua visão completa da história (o 25 de Abril, para a Dona Esperança, foi o tiro de arranque para uma era de assaltos e criminalidade, “porque dantes não havia nada disso, o Salazar não deixava”), para – alguns anos depois – me ficar pelo “director’s cut”: “25 de Abril? Lembro-me perfeitamente: comi favas ao almoço”. Pouco partidário das posições políticas daquela rija mulher de Paredes de Coura, tomo a liberdade de lhe pilhar a metodologia. Onde estava eu quando Kurt Cobain morreu? Em casa, a ver o jornal da SIC, absurdamente chocado pela morte de um dos maiores.