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O Panamá em cinco canções

Numa altura em que o Panamá está nos destinos mais inevitáveis da informação, que tal um outro mergulho por aqueles lados? Pela música...

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

“E do Panamá o que é que há para se ouvir?”... A pergunta era-me feita há uns dois dias, numa conversa entre amigos. E de facto deu que pensar já que, além do mestre salsero Ruben Bládes, o meu arquivo de memórias panamianas não tinha muito mais entradas registadas no verbo “ouvir”... Isto partindo do princípio que o “Panama” dos Van Halen, de 1984, não conta, já que só partilha com o país centro-americano o nome (na verdade a canção fala de um carro). Tal como não conta a banda de alma indie e com vídeos caros, com ar de filme publicitário, mas que ninguém conhece e que se chama simplesmente Panama. Ou ainda as inúmeras referencias a uma Panama City em várias canções pop/rock porque aí não se fala mais do que da cidade na Florida com esse mesmo nome e que é um destino frequente para os “spring breakers” (algo que as letras das canções que a retratam não deixa de ter em conta)... Pois é, depois de uma série de dias a ouvirmos falar do Panamá, pode não ser má ideia olhar um pouco para o que vem de lá... Além das revelações, naturalmente... Ou daquela memória de infância quando, na hora de sair para a rua em dia de sol, a mãe nos perguntava... “trouxeste o panamá?”. E zás, de elástico no queixo, lá fazíamos o passeio com o chapéu na cabeça. O panamá, esse mesmo.

Um mergulho entre a música do Panamá revela-nos um mundo que, por um lado, traduz as relações naturais com o espaço geográfico e cultural onde o país se insere, não sendo de estranhar uma vasta oferta entre cumbias, calipsos, salsa, além de expressões populares mais focadas naqueles lugares como o tamborito ou o pindin. Há uma importante história nos planos do jazz, que recua aos anos 20 tendo em Luis Russell (que em 1919 se mudou para New Orleans) um dos seus mais importantes pioneiros. E, nos tempos recentes, uma família de nomes em volta de expressões de contacto de raízes latinas e caribenhas com a modernidade electrónica, como particular presença do reggaeton. Estes diálogos com outras culturas e formas não são contudo coisa recente, e nos anos 70, por exemplo, floresceu ali uma família de acontecimentos na área da soul e do funk, que hoje podemos recordar através de antologias editadas pela Soundwax Records. A série “Panama!”, vai já em três volumes, e é talvez a melhor porta de entrada para um olhar panorâmico (e bem selecionado) sobre a música mais inspirada que ali foi surgindo nestes planos de diálogo entre as heranças latinas, a soul, o funk e o jazz.

Para transformar alguns destes trilhos e nomes em som, ficam aqui cinco canções. Não são o melhor da música do Panamá. Mas são cinco retratos possíveis, entre os muitos que podem abrir curiosidade pelas músicas de uma terra que está, como sabemos, na ordem do dia.

Rubén Blades

“De Panama a New York”

Nascido em 1948, formado em ciências políticas, Rubén Blades é talvez o mais conhecido dos músicos panamianos. Com uma discografia que remonta a finais dos anos 60, desenvolveu uma obra que procurou dialogar com novas formas e desafios, incorporando quer heranças do jazz quer da “nueva cancion” cubana. É sobretudo celebrado pelas criações de “salsa” e tem um reconhecimento internacional conquistado há já muitos anos, que lhe valeu entretanto grandes distinções, entre as quais sete Grammys. “De Panama a Nueva York” é a canção que deu título ao álbum que, em 1970, gravou na companhia da Orquestra de Pete Rodrigues.

Frederick Darke

“Soul Chombo”

Um dos exemplos da cena soul e funk que emergiu no Panama entre finais dos anos 60 e inícios dos anos 70, traduzindo não apenas a multiculturalidade local como uma atenção para com formas emergentes nos domínios do R&B de origem norte-americana de então. “Soul Chombo” de Frederick Darke é um dos temas incluídos no EP “Panama Soul” reeditado em 2012. O tema está ainda incluído no volume 3 da série “Panama”, que tem por título completo “Panama! 3 – Calypso Panameno, Guajira Jazz & Cumbia Ti­pica on the Isthmus 1960-75”.

Lord Panama

“The Creature”

Um exemplo clássico de um calipso com origem no Panamá. Originalmente editado em single pela Panix Records, esta canção na voz de Lord Panama é, apesar de cantada em esopanhol, apresentada com um título em inglês na etiqueta do single (o que sugere uma circulação internacional do disco). Lord Panama foi a voz mais marcante do calispo panamiano, com carreira ativa até depois dos 70 anos, refletindo muitas das suas músicas a história dos povos que ali confluiram.

Los Exagerados

“Panama Esta Bueno... Y Mal”

Foi esta a canção que abriu em 2006 o alinhamento da primeira antologia que a Soundwax dedicou à recuperação de criações panamianas onde as tradições das músicas latinas e caribenhas refletiam diálogos com expressões de outras fontes, do jazz ao funk e arredores, juntando uma série de registos clássicos editados em disco entre 1965 e 75. Banda já desaparecida, os Los Exagerados, um trio formado por Carlos ‘Salsa’ Zulueta, Jose ‘Chombo’ Silva e Rafael Labasta, mostram neste tema que abria o álbum “Los Exagerados”, pontes possíveis entre a salsa e o jazz.

Pedro Altamiranda

“Carnaval en La Central”

Extremamente popular no Panamá, é sobretudo conhecido por criar canções com um travo satírico, muito usadas no carnaval e frequentemente apontadas a alvos políticos, usando expressões do calão local em várias letras. É pelo historial de sátiras políticas que a sua obra merece ser mencionada, tendo muitas das suas primeiras gravações sido alvo da censura. A sua obra incluía então canções claramente “dedicadas” a figuras do regime de Manuel Noriega (que esteve no poder entre 1983 e 1989), assim como de então para cá foi retratando outros nomes que a cena política local foi revelando.