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Quando o futuro transforma o passado

A propósito de mais um aniversário da morte de Kurt Cobain

Como qualquer apreciador da obra dos D.E.VO. tem obrigação de saber, o rumo dos acontecimentos vai alterando inapelavelmente a nossa percepção do passado. Esta é só uma forma simplista de descrever a Teoria da Deevolução, a mesma que levou a banda mais importante da new wave a gravar uma versão de "(I Can't Get No) Satisfaction", dos Rolling Stones.

De forma igualmente rudimentar e primitiva, essa opção explica-se também em duas penadas. Quem tiver ouvido primeiramente a versão dos D.E.V.O. para o clássico dos Stones ficará com uma noção tal dessa canção que influenciará sempre posteriores audições do original.

Isso quer dizer que ao se ouvir o tema original, tal como gravado pelos Rolling Stones, ele ficará com toda a certeza marcado por esta sua nova versão. Ou seja, o futuro transforma o passado e não há nada mais importante para a história do que o devir.

Desta maneira, são os D.E.V.O. quem influenciou os Rolling Stones, e não o contrário, invertendo-se assim a lei cronológica das coisas. E isso é irremediavelmente um facto à luz do que atrás foi dito. Vem isto a propósito de mais um aniversário da morte de Kurt Cobain que entregou a alma ao criador fez ontem 22 anos.

Não exatamente por isso, mas também por isso mesmo, os Nirvana e o seu líder conquistaram um estatuto que desde então para cá nenhum outro artista conseguiu. Falo do que sei: as edições da BLITZ com Cobain e os Nirvana na capa foram um êxito de vendas que revelavam, sem margem para dúvidas, o fascínio que a música e a carreira de ambos ainda hoje suscitam junto do público.

Muitas outras estrelas da música popular faleceram em circunstâncias mais ou menos trágicas depois de Kurt Cobain. Não precisamos de puxar pela memória para lembrar Michael Jackson, Amy Winehouse e, mais recentemente, David Bowie.

Até há bem pouco tempo, nenhuma dessas figuras conquistou, porém, a aura de Kurt Cobain, eventualmente porque o vocalista dos Nirvana deixou este mundo por mão própria, ao contrário de todos os outros. Mas talvez seja também necessário recordar um contexto mediático que, naquele tempo, na década de 1990, era em tudo diferente daquele que hoje existe.

Rádio, televisão e imprensa formavam então um habitat que, comparado ao da atualidade, se apresentava como o império da ordem sobre o caos. A internet não estava massificada e Mark Zuckerberg, com dez anos, provavelmente ainda jogava ao berlinde. Ainda faltava um lustro para terminar a década dourada do CD e o streaming era coisa que não cabia na cabeça de (quase) ninguém.

A morte vende sempre bem, seja na música, nos livros, no cinema ou nas outras artes. Tanto ontem como hoje e, muito provavelmente, amanhã. O que desde então deixou de existir foi um alinhamento tão grande entre os media, o que nos é recordado pelas imagens da notícia de Alberta Marques Fernandes, na SIC, a ler a notícia do achamento do cadáver de Cobain na sua casa de Seattle.

Hoje, a velocidade e o tom agudo destes acontecimentos especiais, como recentemente provaram os atentados em Bruxelas ou os Panama Papers, é no entanto elevado à décima quinta potência nos momentos imediatamente a seguir a serem soltos na internet e nos demais media.

A sua "consolidação" é porém bastante menos acentuada, até porque nas próximas semanas - que digo, nos próximos dias! - surgirá um novo acontecimento capaz de dispersar a nossa atenção do anterior. E assim será sem parar.

A notícia da morte de Kurt Cobain, que a BLITZ teve o cuidado de respescar para a sua edição online de hoje, tal como foi lida nos noticiários das televisões generalistas, é decididamente afectada pela forma como desde então já passámos pelas mortes de Michael Jackson, Amy Winehouse ou David Bowie.

Uma possibilidade que se abre sobretudo (mas não só) a quem não estava lá. Ou a quem não prestou atenção ao relato do sucedido há 22 anos atrás. Porque, por estes dias, fazemos o luto ao mesmo ritmo das notícias, quase instantaneamente. E então quase nada fica.

A menos que alguém ainda se lembre de recuperar uma notícia antiga, ou fazer uma versão dos Nirvana. Daquelas capazes de mudar tudo, outra vez. Só assim pode valer a pena.