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Uma casa pop portuguesa? Com certeza!

A nossa memória pop corre o risco de se desvanecer se não houver quem a preserve, afiança Rui Miguel Abreu

Nos Estados Unidos sucedem-se factos curiosos: Afrika Bambaataa entregou a sua coleção de discos à Cornell University, o Smithsonian tem à sua guarda o sampler que pertenceu a J Dilla e depois há museus temáticos dedicados ao hip-hop no Bronx, ao techno em Detroit, ao country em Nashville. Há o Rock and Roll Hall of Fame. Graceland. Neverland. Hitsville USA. O número 1520 de Sedgwick Avenue, no Bronx, foi reconhecido como marco histórico pela câmara de Nova Iorque que o aponta como local de nascimento do hip-hop. Já a Europa viu exposições itinerantes dedicadas a Elvis Presley. A David Bowie. Prepara-se para ver outra dedicada aos Rolling Stones. Frankfurt vai ter um museu da música electrónica em 2018. E por cá?

Há, na Valentim de Carvalho de Paço de Arcos, históricos gravadores que registaram os Beatles em Abbey Road e que depois serviram para ajudar a eternizar gente como Amália Rodrigues. Haverá microfones que merecem um lugar na história por terem captado a voz de Marceneiro ou Carlos do Carmo, a vibração do ar provocada pelas cordas de aço de Carlos Paredes.

Boa parte do espólio de António Variações foi disperso em leilão, não se sabendo exactamente onde estão as suas icónicas peças de vestuário. Não se guardaram os estandartes dos Heróis do Mar, as decorações de palco dos Mler Ife Dada, os desenhos originais de Jorge Colombo. Há tanto por fazer...

A memória pop, a memória da música pop nacional, não está centralizada e deveria. Não existe uma colecção de discos que possa ser consultada e que viaje entre as pioneiras edições do Quarteto 1111 ou da Filarmónica Fraude, nos anos 60, o arranque das carreiras de gente como Sérgio Godinho, Fausto ou Jorge Palma, nos anos 70, a explosão eléctrica do arranque dos anos 80 com Rui Veloso e os GNR, a era “moderna” dos Pop Dell’Arte e Mão Morta, os anos 90 dos Blind Zero, Gift e Silence Four, o novo e caleidoscópico milénio.

Não há uma instituição que preserve o sampler de Sam the Kid, algumas das máscaras dos Blasted Mechanism, o caderno de rimas de General D, a mesa de mistura do Rock Rendez Vous, as películas das curtas de Legendary Tigerman, a cartola de Tó Trips ou os sapatos que Ana Moura usou na primeira vez que se apresentou em Nova Iorque.

Não há, mas deveria haver. Uma instituição que pudesse recolher, catalogar e estudar coleções de discos, acervos fotográficos (nos últimos anos olhei para incríveis coleções de Teresa Couto Pinto, de José Faísca, de Peter Machado), coleções de posters, de videoclips. Uma instituição que guardasse e estudasse os programas de festivais, as publicações que se debruçam sobre música. Uma instituição que aceitasse doações de artefactos significantes e os pudesse expor. Uma instituição que percebesse que a cultura pop tem sido um importante motor ou reflexo das grandes transformações sociais das últimas décadas: anunciou-se uma revolução com uma canção pop na rádio, travou-se uma barragem com a ajuda de um refrão de hip-hop, uniu-se um país em torno da causa de Timor com uma canção, trouxe-se uma geração em protesto para as ruas com outra canção, que de parva não tinha nada. A música pop tem servido como banda sonora para a vida deste país, mas ao contrário do que se passa noutros pontos do planeta, não se parece valorizar esse lado da nossa cultura.

Talvez esteja na hora, não?

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